Enfrentamento ao racismo | 28 Out 2019

Angela Davis e as faíscas que acenderão a revolução

Em visita ao Brasil, Davis e Patricia Hill Collins ensinaram que é preciso redirecionar o olhar para o futuro a partir de nossas conquistas, e não somente de nossas dores
por Maria Teresa Ferreira Jurado, do Momunes

A entrada da primavera parece ter trazido consigo, da América do Norte, uma espécie de frescor que emana consciência, força e propriedade combinadas na singular interpretação da luta antirracista e do pensamento feminista negro.

A intelectuais estadunidenses Angela Davis e Patricia Hill Collins vieram ao Brasil participar de debates e conferências públicas. Consegui acompanhar uma das conferências de Davis, no parque do Ibirapuera em São Paulo. Numa noite de segunda-feira, a filósofa reuniu uma multidão (cerca de 15 mil pessoas ) no gramada diante do auditório Oscar Niemeyer.

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Saí do evento animada. Senti que essas duas mulheres trouxeram, nessa rápida passagem pelo país, fôlego novo às velhas lutas sociais. Suas presenças esquentaram as brasas que norteiam as discussões e as ações mobilizadoras do movimento social brasileiro, sobretudo o movimento negro e o movimento de mulheres negras.

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Desde que “aquele que ocupa o escritório” (como disse Davis durante sua conferência em São Paulo) chegou ao Palácio do Planalto, o Brasil mergulhou numa espécie de escuridão. Sobreveio a brutalidade da histeria coletiva que recrudesce cada dia mais sua violência contra as minorias sociais.

 
A filósofa Angela Davis durante evento em São Paulo (foto: Maria Teresa Ferreira Jurado)

O movimento feminista, o movimento de mulheres negras, o movimento negro, a população LGBTQI+, o movimento sem terra, o movimento sem teto, os quilombolas, levantam-se contra esse poder que se estabeleceu. Questionam a falta de humanidade dos valores impostos pela sociedade heteronormativa, e exigem mudanças concretas e urgentes. Resistimos com firmeza. Mas, às vezes, parece difícil driblar o cansaço e o temor.

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Davis e Collins nos ajudam a retomar o fôlego. O clarão do entendimento dessas duas mulheres acerca da importância de reconhecer a centralidade das questões raciais para a diminuição da violência e da pobreza, e do quão fundamental é a presença das negras nesse processo, reafirma que o único caminho possível para sermos livres do hetropatriarcado é a unidade e a organização popular.

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Qualquer alternativa fora desse caminho atrasará ainda mais o desenvolvimento autônomo  das relações políticas sociais e econômicas. Urge entender o viés racializado com que construímos as práticas sociais e afetivas que vivenciamos hoje.

Ao longo da história, uma série de eventos que eclodiram pelo mundo — a Primavera Árabe, a Revolução dos Cravos, a revolução Russa, a Revolução Cubana — nos permitiram perceber que as grandes vitórias foram construídas ao custo de muitos — e, às vezes, diminutos — passos.

No Brasil, a Revolta dos Malês, a Revolta da Chibata, a Balaiada foram gestadas a partir de Palmares e seus desdobramentos continuam a desabrochar em aquilombamentos como As Mães de Maio, A Marcha das Mulheres Negras, A marcha da Consciência Negra, a Coalizão Negra por Direitos.

São movimento e coletivos conduzidos por pessoas que assumiram o protagonismo da sua existência, e tomaram ações concretas para garantir o avanço das suas pautas tanto no âmbito federal, estadual e municipal, maximizando e dando voz as suas realidades sociais. São movimentos modernos, com raízes ancestrais. Avançamos, e vamos continuar avançando.

Perguntaram-me o que aprendi com Angela Davis e Patricia Hill Collins.

Aprendi a redirecionar o olhar para o futuro a partir dos avanços e não somente das dores. A  valorizar cada chibatada, porque foram elas que fortaleceram nossos ideias de permanecer. A resignificar ensinamentos ancestrais com mais tenacidade para enfrentar o capitalismo nefasto que se  apodera das nossas pautas, as transforma e nos entrega de volta degeneradas. A celebrar a alegria da negritude dos cabelos, das formas, do modo de ser. A agradecer a cada Mãe Preta e a cada Preto Velho que de Aruanda protegem nossos passos. Porque esses passos vêm de longe, e vão nos nos levar mais longe ainda.


foto de topo: reprodução Facebook

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