Enfrentamento ao racismo | 25 Mai 2020

10 escritoras e escritores negros para conhecer durante a quarentena

Brasil de Direitos pediu a ativistas, escritores e pesquisadores que indicassem leituras para os dias de confinamento. São obras de teoria e de ficção
Quando leu O Olho mais Azul, da  escritora estadunidense Toni Morrison, a jornalista Fabiana Moraes —  professora da Universidade Federal de Pernambuco — ficou encantada com as descrições que a autora fazia das casas de seus personagens. Eram residências simples, que os proprietários, homens e mulheres negras e negros pobres, tratavam como pequenos tesouros. “O livro me fez repensar as ideias que temos sobre propriedade. Para aquelas pessoas, a casa própria significava viver sem temer a indigência”, diz Fabiana. 

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A sensação de descoberta lembra aquela experimentada anos atrás pela programadora Nina da Hora. Ainda na adolescência, Nina descobriu os relatos de Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo. A linguagem simples e precisa da autora, moradora de uma favela em São Paulo, lembra a Nina seus objetivos como cientista: “Quero simplificar questões complexas”.

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Quando quer se refugiar da dureza da realizada, a pesquisadora Winnie Bueno relê Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngoze Adichie. A obra conta a história de Ifemelu, que migra da Nigéria para os Estados Unidos para estudar: “ A história nos ajuda a pensar a multiplicidade das experiências das mulheres negras”, afirma.

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Fabiana, Nina e Winnie buscaram, nas obras dessas três autoras negras, conhecimento e alento. Pensando nesses dias difíceis de confinamento, a Brasil de Direitos pediu às três — e a outros sete ativistas, escritores e pesquisadores — indicações de leituras que fossem capazes de instruir ou encantar. A lista abaixo reúne obras de teoria e de ficção. Todas escritas por autoras e autores negros. 



Winnie Bueno 
@winniebueno
Pesquisadora, ativista do movimento negro, é criadora da Winnieteca

O livro


"É um livro lançado no final do ano passado, em que ela traz uma organização bem amarrada da produção intelectual de mulheres negras brasileiras, e também dos desafios e horizontes políticos  que essas mulheres apontam. É uma obra interessante nesse momento, justamente porque as soluções, as maneiras como as mulheres negras resistem às injustiças sociais, nos apontam uma série de possibilidades, de perspectivas. Ler esse livro nos ajuda a entender o contexto em que essas mulheres historicamente viveram.  E como elas foram capazes de, inclusive, desafiar esses contextos e articular um pensamento político original, como ferramenta de resistência. É um livro importante por nos apontar esperanças. As respostas estão mais articuladas no ativismo de mulheres negras do que nas instituições." 


Bônus


"É uma obra com leitura muito dinâmica, muito viva. A história da Ifemelu, que é a personagem principal, contagia, nos abraça. Faz com que a gente vivencie aquela narrativa. E é uma narrativa interessante para a gente pensar a multiplicidade de experiências de mulheres negras. Essas experiências são muito marcadas pela dor, mas não só por isso. Americanah é um livro gostoso de ler, um dos que eu mais gosto. Vai proporcionar ao leitor uma forma de conforto e alegria. De esvaziar um pouco desse tanto de informação que a gente recebe , e que nos angustia. A escrita da Chimamanda é muito potente. As pessoas vão se empolgar e se divertir muito com a Ifemelu, tanto quanto eu me diverti e ainda me divirto."


Fabiana Moraes  
@fabi2moraes
Jornalista e Escritora, autora dos livros O Nascimento de Joicy e Os Sertões

O Livro:


"Esse foi o último livro de Toni Morrison que li, e foi o primeiro que ela publicou. Das obras de Morrison, foi a que mais me tocou. É tocante a forma como ela aborda a pobreza. A questão da propriedade é uma das muitas que perpassa O Olho mais Azul. A história conta casos de pessoas negras muito pobres, que não  conseguem ter casa própria. Quanto conquistam o imóvel, ele se transforma numa espécie de tesouro: as casas são muito arrumadas, muito asseadas. São casas com paninho de crochê por todo canto. Essas imagens me fizeram pensar sobre a relação que temos com a ideia de propriedade. Entre nós, progressistas, ela é muitas vezes vista como negativa. Para as pessoas negras narradas por Morrison, a propriedade significa escapar ao aluguel. Significa não temer a ameaça do despejo, a ameaça de uma possível indigência. Entre as história do livro, nos é contada a de Pecola, uma criança negra. Fala-se, também, de uma divisão entre pessoas negras de pele mais clara e pessoas negras de pele mais escura. Outro tópico é a discussão sobre certo auto-ódio, muitas vezes percebido entre pessoas negras, pelo fato de nascerem em contextos que as desvalorizam."



Bônus


"Amada é outro  livro importante para mim. E que me interessa especialmente como jornalista. Morrison conta a história de uma mulher escravizada que, ao fugir, leva os filho, entre eles um bebê. Ela é perseguida pelos seus antigos senhores. Quando eles a alcançam, a mulher mata uma das crianças. Tenta se matar, mas não consegue. Para ela, a morte era preferível à escravidão. Essa história de fato aconteceu e Morrison a recontou a partir do que leu nos jornais. Ela diz uma coisa que me comoveu muito, que me interessa: a de que, às vezes, a literatura vai conseguir falar melhor das coisas do que a própria realidade. Eu acredito muito nisso, e acho Amada é um exemplo.. Nunca tinha lido uma obra sobre pessoas escravizada que me trouxesse tanta clareza dos sofrimentos vividos ali."



Jeferson Tenório
@jefempessoa
Professor de literatura, escritor e autor do Romance Estela sem Deus (2018)
 
O livro


"Trata-se de um livro que renova a poesia brasileira, porque expõe, liricamente, a trajetória dos corpos negros marcados pela cor. O livro apresenta, através de palavras-estiletes, a nervura e os afetos da condição negra com toda sua complexidade humana e estética."




Nina da Hora
@ninadhora
Cientista da Computação, é colunista da Perifa Connection na Folha de S.Paulo

O Livro



"Como eu trabalho com ciências da computação, as pessoas esperam que eu indique livros de exatas. Mas, um livro que me tocou foi Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus. Por todo o contexto que ela descreve, muito semelhante ao que vejo. Nasci na periferia, vivi como periférica. Esse livro me ajuda a não esquecer o que busco na ciência,que é tornar a ciência acessível a quem, por diversos motivos, vive longe dela. Tentar diminuir a desigualdade e proporcionar momentos felizes para os meus. Esse livro me lembra que é muito difícil vencer quando tudo está contra você.  Por fim, a linguagem simples da Carolina ao escrever me emociona e me inspira muita a seguir sempre com uma linguagem simples. A ciência complica a linguagem, dificulta o acesso a ela. Eu quero simplificar."




Caio César
Professor, Pesquisador e Criador de Conteúdo
 
O livro



"Ela traz nesse livro a temática do encarceramento em massa. Acredito que é um tema super importante que precisa ser ainda mais abraçado pelas pessoas pretas, pelo viés do abolicionismo penal. Mesmo sendo um tema delicado, ela explica de maneira super didática todas as problemáticas em volta disso. E o quanto o racismo é o motor principal dessa política. Foi um livro que mudou minha vida."




Lilia Melo
Professora e ativista, criadora do Cineclube Terra Firme. Uma das 50 finalistas do Global Teacher Prize, o Nobel da educação

O livro



"Até ler esse livro, eu não conhecia a poesia preta. E não conhecia a militância do movimento preto na literatura. Maca é professor de literatura da Universidade Caótlica de Salvador, é militante e fundador do Blacktude. Ele traz essa nova concepção e metodologia aplicada nos saraus com poesia preta —que é a poesia do pé no chão. Com ele, eu aprendi, na prática, a aplicação do “pretoguês”. Uma teoria de Lélia Gonzales, que descreve como o povo preto, dentro de seu contexto histórico, não teve preparação para dominar o padrão formal da língua. O português como falado em Portugal. A maior parte da população pobre, preta, não domina essa gramática normativa. Por que não teve acesso à escola, ou às melhores escolas. A gente aprende nossa língua materna conforme é possível, a partir das pessoas do nosso convívio. Por isso, vamos criando, nas periferias e quebradas, nossas maneiras de falar e de se expressar.  Daí surge uma poesia marginal, que não é canonizada, não é estudada nas universidades, mas que muito diz do nosso povo, que muito conta a nossa história.


Depois de ler o Maca, eu passei a aplicar essas ideias em sala de aula. Isso fez surgir uma discussão sobre a importância de a linguagem se aproximar da realidade dos meus alunos e alunas. De modo que entendessem que o estudo não é algo descolado da vida. Ele deve ser um instrumento para servir às nossas necessidades."


Val Benvindo
@ValBenvindo
Jornalista e produtora
 
O livro



"Esse é meu livro de cabeceira. Eu acho que, no momento em que estamos vivendo, indico ainda mais, porque ele faz apanhado geral da história do Brasil, algo que está faltando para a maioria dos brasileiros, hoje em dia. Conhecer a história do nosso país, para entender porque é tão importante a política de cotas, projetos sociais, políticas públicas. O livro mistura romance com história, é um livro grande, mas me tocou e me embalou mesmo, de eu ficar triste quando acabou."



Lu Ain-Zaila
@LuAinZaila
Escritora afrofuturista, pedagoga. É autora da duologia Brasil 2048

O livro



"Todas as obras do Ipeafro, com Abdias Nascimento e Elisa Larkin,  foram muito importantes para a minha trajetória como escritora. Lembro, ainda hoje, de estar no lançamento de Povos Africanos, no Museu da República. Tenho, ainda, uma cópia de O Griot e as Muralhas, autografado por Abdias. trata-se de uma biografia feita a quatro mãos, por Abdias e pelo poeta Éle Semong. Dele e de Larkin, a coleção Sankofa merece um carinho especial, por tantas informações importantes. Os quatro volumes da coleção resgatam a história da matriz africana. Para quem não tiver acesso aos livros, ainda é possível ter acesso a muita informação no site da Ipeafro. Não podemos deixar cair no esquecimento esse legado de conhecimento imenso e magnífico. "



Tulio Custódio
@custodta
Sociólogo e sócio e curador de conhecimento na Inesplorato
 
O livro



"Machado como excelente crítico da realidade brasileira do século XIX, tem perspectivas ótimas que continuam contemporâneas. Um delas é certa "perseguicionismo" quase que uma loucura que temos no país, especialmente no momento atual com figuras governantes. Um ficção que dá margem para pensar muitas das coisas reais que estamos vivendo no momento."

 
 
 

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