Crianças e adolescentes | 13 Jul 2020

Escolas de SP se tornam núcleos de solidariedade e governança em meio à pandemia

Professores relatam experiências que buscam minimizar impactos da crise sanitária. Iniciativas vão desde doações de cestas básicas até atendimentos para facilitar acesso a auxílios
com edição  de Guilherme Weimann

A pandemia do novo coronavírus tem reverberado de diversas formas na vida das famílias. Com o fechamento de escolas públicas e de centros culturais e esportivos, crianças e adolescente completam mais de três meses entre os esforços para manter seus estudos e a angústia do isolamento social, muitas vezes realizado em condições precárias de moradia e com acesso restrito à internet.

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Também resultado da pandemia, a crise econômica está deteriorando a vida de milhões de famílias numa velocidade na qual governos não conseguem acompanhar, seja por incapacidade ou por falta de vontade política.

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A coordenadora pedagógica da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Vicente Paulo da Silva, localizada na Zona Norte de São Paulo, Dirce Aparecida dos Santos Lima, conta como percebeu, logo no começo da crise, que muitos de seus alunos não estavam recebendo o cartão merenda, o que estava ocasionando falta de alimentos em casa. “Nós havíamos percebido que muitas crianças não tinham recebido o cartão merenda. Isso gerou uma falta de alimentos para as crianças e para as famílias. A nossa escola tem mais de 300 crianças e menos de 20% delas recebem o auxílio merenda, porque é necessário estar cadastrado no Bolsa Família para acessar o benefício”, explica. 

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O aumento do número de ligações de pais e responsáveis fez o corpo de servidores refletir sobre o papel da escola em tempos de crise. “Estávamos pensando no pedagógico, mas não estávamos pensando no bem estar das crianças. Elas [professoras] estavam muito preocupadas. Nessas reuniões nós levantamos possibilidades de como estar ajudando”, recorda Dirce.

Diante dessa urgência de buscar alternativas para minimizar o impacto da pandemia na vida das famílias, surgiu a ideia de arrecadar dentro da própria escola valores para a aquisição de cestas básicas. Mas logo o grupo percebeu que os valores de compra e distribuição de cestas estavam além do que todos professores poderiam pagar para garantir que todas as famílias que possuem crianças matriculadas pudessem receber. 

A solução, como tem sido de praxe num momento de crise como esse, deu-se por meio de ações de solidariedade. “Com esse anseio de dar uma cesta básica para cada família, a gente foi atrás de parcerias. Mercados próximos, projetos, ONGs e UBS”, elenca Dirce.

A coordenadora não mediu esforços e acionou em pouco tempo uma verdadeira rede de solidariedade ao redor da escola. “Fomos atrás de amigos. Eu fui atrás de professoras, que são minhas amigas. Minha gerente bancária, que é minha amiga pessoal, também ajudou, entrou na ação. O supervisor da escola também ajudou na ação. E foi assim, um foi falando para o outro. Eu mandei mensagens para alguns pais que eu sei que tem uma condição financeira melhor e eles também foram ajudando”, explica.

Graças a esse trabalho conjunto, a EMEI Vicente Paulo da Silva conseguiu arrecadar cestas básicas suficientes para todas as famílias com crianças matriculadas e para outros funcionários terceirizados da escola. Neste momento, inclusive, já consegue traçar planos para futuras ações. “Na segunda entrega, nós já estamos avaliando de dar prioridade para quem apresenta maior vulnerabilidade, como a comunidade estrangeira [migrante], que está desempregada pelo fechamento das oficinas de costura”, afirma a coordenadora.

Cenários de crise como essa tornam mais evidente a importância da escola pública como núcleo de solidariedade. Na cidade de São Paulo, professores, coordenadores, diretores e servidores em geral têm se desdobrado em centenas de iniciativas para auxiliar e cuidar de populações vulneráveis nas periferias da capital. Suas ações englobam desde mobilizações para arrecadar alimentos destinados a famílias em situação de vulnerabilidade, ações de conscientização para evitar o contágio do novo coronavírus ou até mesmo atendimentos para facilitar o acesso ao auxílio emergencial.

Acolhe Divineia
Esses trabalhos coletivos de solidariedade, como o realizado na escola de Dirce, multiplicaram-se nos últimos meses e deixam claro a importância vital que a escola possui para os territórios onde estão inseridas. Foi assim também que nasceu a iniciativa Acolhe Divineia, organizada por profissionais de duas escolas em apoio às famílias da comunidade que leva o mesmo nome no Jardim Cachoeira, também na Zona Norte de São Paulo.

O diretor da EMEI Bombeiro José Robson Costa De Araujo, Francisco de Campos Pacheco Neto, explica que a ação nasceu do agravamento de uma crise econômica que já existia. “A covid-19 veio aprofundar uma situação que já estava ruim e muita gente que estava numa situação razoável passou para uma condição de pobreza muito rapidamente. Pessoas que tinham alguns recursos agora estão numa situação muito difícil e ainda não conseguiram acessar os programas sociais emergenciais”, explica.

A rede Acolhe Divineia começou, segundo o diretor, depois que profissionais de sua escola resolveram aderir a uma campanha que já existia em um colégio vizinho. Francisco afirma que os próprios servidores fizeram uma campanha de cadastramento na Divineia, criaram uma página no Facebook para divulgar o canal de doações e, apenas na primeira etapa de distribuição, conseguiram entregar 72 cestas - o que contemplou parte das 140 famílias que foram cadastradas. 

Nesse processo, Francisco ressalta a importância do trabalho em rede. “Organizamos um grupo de WhatsApp com as famílias migrantes de nossa escola e as colocamos em contato com membros do Projeto Canicas para que eles pudessem apoiá-los”, exemplifica. O Canicas é uma iniciativa parceira no atendimento à população migrante em escolas da Zona Norte de São Paulo. O diretor ainda completa: “nós já tínhamos estabelecido pontes com organizações que trabalham com a população migrante, mas não conseguiríamos dar atendimento e garantir direitos aos migrantes da nossa comunidade, no tempo e na qualidade necessária neste momento de crise, sem as parcerias que construímos” .

Outros grupos de WhatsApp também foram feitos com famílias para distribuir informações sobre cartão merenda, auxílio emergencial, distribuição de cestas básicas e de material escolar e também para compartilhar informações tanto da secretaria de educação quanto das UBSs que atendem na região.  Segundo Francisco, as escolas realizaram, até o final de abril, um trabalho dentro das comunidades de “viabilizar a chegada dos recursos públicos, seja no auxílio em cadastros, atualização de endereços e até na entrega de cartões e de materiais escolares”. A partir daí, com o agravamento da crise social e econômica e o atraso nas iniciativas públicas, as ações de solidariedade começaram a se multiplicar. 

Para o diretor, o papel da escola em regiões de periferia é, antes de tudo, “a presença do Estado dentro das comunidades”. “É um equipamento que trabalha a questão da educação, mas hoje sabemos que a educação não é apenas o professor em sala de aula. A escola tem um papel educacional muito maior, que extrapola a sala de aula. A forma como a criança se alimenta, a forma como ela ocupa o espaço no entorno da escola, a forma como ela vive seu território faz parte da formação educacional dessa criança”, opina.

O currículo é a vida
A integrante da Divisão Pedagógica da Diretoria Regional de Educação da Freguesia/Brasilândia, Juliana Nagahama, afirma haver um sentimento de angústia também por parte dos profissionais da educação. “Eu acho muito angustiante a gente não conseguir estar com todas as crianças, com todos os jovens e todos os adultos educandos. O estar junto é justamente estar nesse processo educacional, de dialogar, de mediar processos, de aprendizagem, de olhar no olho, de propor, de aproximação. Eu acredito que para os profissionais esse foi um grande impacto”, afirma a educadora, que ainda completa: “eu acredito que o mais angustiante é pensar nas vidas, de todas as partes. Nesse momento, a primeira coisa que as pessoas colocam na sua direção é buscar uma vida e como essa vida está acontecendo”.

Para a professora e alfabetizadora, momentos como esse mostram mais do nunca que o currículo da escola pública é, em última instância, a própria vida. “Está acontecendo uma mobilização muito grande. São esforços muito importantes para que se garanta esse currículo, essa vida. Não existe falar de educação sem vida. E essa vida com um mínimo de dignidade”, reflete.

Juliana enxerga nas ações de solidariedade justamente essa valorização da vida e busca pela dignidade. “Esses processos de solidariedade ocorrem justamente pensando nessa dignidade humana. A bandeira de luta pela educação precisa estar levantada ainda mais alto. Eu vejo uma articulação dos profissionais das unidades educacionais muito vivas. Cada um assumindo um papel diferenciado. Em alguns momentos a equipe se articula com os equipamentos do seu território, em outros se mostram engajados em uma captação dos recursos necessários. Está ocorrendo um trabalhado de rede, de fato”, avalia.

Relatos de profissionais como Dirce e Francisco, que redobraram seus trabalhos nos últimos meses, arriscando-se a fazer entregas e atendimentos em meio a uma pandemia, demonstram a potência e importância de servidores comprometidos com um projeto de educação pública. Em um momento em que se discute o congelamento de salários de servidores e uma constrição ainda maior dos investimentos públicos, profissionais resistem em “olhar para a função social que a escola exerce”, como afirma Juliana: “dentro dela, mas também para fora dela. O objetivo da educação é pensar na formação de uma sociedade inteira. E quando a gente atua, principalmente nesse momento em que a nossa preocupação poderia estar apenas no foco do material pedagógico, a gente tem que olhar de uma maneira muito mais ampliada. Precisamos olhar para essa matéria humana, para essas vidas. Eu tenho certeza que isso está acontecendo em muitas redes, muitas escolas. Isso é pensar um currículo no qual a vida é mais importante”.

A escola desponta, portanto, como espaço pedagógico para toda a comunidade que a rodeia, local de apoio e cuidado em um momento tão complicado. Juliana aponta para uma reflexão de Paulo Freire, exposta na obra “À sombra desta mangueira”, na qual ele afirma que “estar só” é “estar com”: “isso é muito forte. Ele fala isso dentro de um processo de reflexão sobre a solidão e a comunhão. E como essa solidão pode ser interpretada, quando a gente está nesse processo de afirmação da comunhão. Quando eu estou nessa solidão para refletir o quanto eu posso ainda aprender, o quanto eu ainda preciso caminhar e o quanto a educação vai se fazendo nesse processo histórico, essa, sim, é uma solidão boa. Diante disso, é importante pensar como é possível manter nossa relação educacional. É importante utilizar essa solidão justamente para pensar em como ‘estar com’”.

E enquanto profissionais da educação pública ocupam os vazios deixados pela ausência de políticas públicas efetivas para o combate da pandemia e da crise econômica e social a partir de iniciativas coletivas, não deixam de vislumbrar um futuro no qual os valores cultivados pela escola pública prevalecerão, como Juliana aponta: “quando eu penso no fim da pandemia, quando ela não puder mais nos afetar, eu penso nas crianças se abraçando, em roda, junto com os professores, sentadas no chão. Podendo correr, dar risada, gritar, falar alto. Enfim, eu acho que é um pouquinho da cena que eu tenho em mente. Eu fico até emocionada. Se for para almejar um retorno é esse, que seja inteiro, verdadeiro, aberto, no qual as pessoas podem ser elas mesmas, falar sobre suas aprendizagens e aprender também com o outro. Seria mais ou menos isso”.

Foto de topo: Secretaria de Estado da Educação de São Paulo

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