Migrações | 21 Jul 2020

Boliviano se isola por 4 meses em hospital para cuidar de paciente brasileiro

Remberto Suarez Roca é conhecido por encarnar a drag queen Florência Transformista — uma ativista LGBTI+. Cuidador de idosos de profissão, narra a rotina do confinamento
Sociólogo e pesquisador sobre migrações e refúgio
 
Quando o governo de São Paulo decretou quarentena pelo novo coronavírus em todo o estado, no dia 22 de março, lojas de artigos não essenciais fecharam as portas, parques foram esvaziados, e o trabalho feito em escritórios migrou para um esquema de home office. Num momento em que as pessoas se isolavam em casa, o boliviano Remberto Suarez Roca decidiu que deveria sair da dele.

>> Sem conseguir apoio emergencial, imigrantes criam redes de apoio mútuo 
 
Remberto tem 33 anos, 6 deles vividos no Brasil. Na comunidade boliviana de São Paulo, é conhecido por encarnar a drag queen Florência Transformista — uma personagem animada que, por meio do humor e da poesia, discute temas caros à comunidade LGBTI+ migrante que vive na cidade e na região metropolitana. Em 2018, Florência foi premiada no 7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes, organizado pelo Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), com uma poesia que mencionava a luta pela igualdade e a reverência a Pachamama (Mãe Terra em Quechua – língua dos povos originários presentes nos Andes).
 


Para além dos eventos relacionados à temática de direito humanos, Remberto já atuava como cuidador de idosos. No final de março, foi contratado para cuidar de um paciente que utiliza cadeira de rodas e está em reabilitação no Hospital Premier, localizado na zona Sul de São Paulo. Dois dias depois da contratação, foi decretada a quarentena. Desde então, os diversos profissionais que atuam no hospital — médicos, enfermeiros, cuidadores, funcionários da limpeza, cozinheiros, ente outros —  estabeleceram um pacto voluntário de não sair para a rua e nem sequer retornar para suas respectivas casas.  O objetivo é reduzir os riscos de contaminação e propagação da Covid-19 no interior do hospital, considerando que os pacientes são de alto risco: muitos são idosos que necessitam de cuidados paliativos.

>>Imigrantes e os labirintos da economia informal no Brasil
 

Remberto aderiu ao pacto já de saída. Na quarta-feira, 22, vai completar 4 meses longe de casa.  “Precisamos nos reinventar e nos conhecer melhor por conta desta pandemia do novo coronavírus. É um momento apocalíptico que ninguém esperava”, destaca ele.  “Foi necessário eu estar aqui para cuidar do meu paciente, não vou deixá-lo. Ele está em processo de reabilitação pois teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Junto de mim, outros profissionais dão o máximo para cuidar de todas e todos, muitos são idosos e necessitam de uma atenção especial e redobrada”, destaca.

>> Imigrantes africanos e haitianos criam iniciativas para enfrentar a Covid-19
 
No universo de mais de 200 pessoas que hoje vivem no hospital, Remberto é o único imigrante. “Todos temos interagido bem neste momento em que a solidariedade é importante. Agora somos todos uma família, ficamos juntos 24 horas. Temos um quarto que divido com os colegas. Não conheço muito a região, ou melhor, não conheço nada. Lembro que no 1º dia de trabalho no mês de março, desci do trem, caminhei pela Avenida Berrini até aqui e não saí mais. Me falaram que tem um shopping aqui perto, é verdade?”, indaga.
 
Oriundo de Trinidad, capital do departamento de Beni, a 500 km da cidade de Santa Cruz de la Sierra, ele mantém contato por whatsapp com seus familiares que estão na Europa. “A saudade é forte, mas tenho uma missão a cumprir”, relata.
 
Num sábado recente, no começo de julho, a agente social do CAMI, a boliviana Grécia Delgado — que atua no trabalho de base da instituição — visitou Remberto. Para evitar o contato físico, os pacientes e profissionais que lá atuam ficam numa pequena área externa separados por um grande vidro, que os isolam do contato físico do mundo exterior. É a “Janela dos Encontros – o que o cuidado une, barreira nenhuma separa”.  Diante dela, os visitantes estabelecem vínculos de afeto com pacientes e profissionais, ainda que separados pelo vidro. “A direção do Hospital criou este protocolo para evitar o contágio. Neste período, não tivemos nenhum caso de coronavírus entre nós, profissionais e pacientes”, ressalta Remberto. “Fomos destaques até numa matéria do New York Times”, relata entusiasmado.
 
Mantimentos, roupas e outros materiais hospitalares que chegam, cumprem as medidas sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS). Além de serem higienizados, ficam em uma área protegida por alguns dias até o vírus deixar de sobreviver na superfície (no caso de estarem contaminados). Só após estas medidas cautelosas é que são colocados de fato dentro do hospital.
 
Alguns profissionais de saúde, pacientes e cuidadores, passavam nos corredores ao fundo do vidro enquanto Remberto e Grécia conversavam. Um deles, um médico (conhecido do entrevistado), tocava uma música erudita no piano instalado na recepção, como forma de entreter os confinados. Remberto comentou diversas situações ocorridas durante o seu confinamento voluntário e refletiu sobre a comunidade migrante na cidade de São Paulo e seu personagem: “Florência está parada, não posso atuar no momento. Muitos que eram artistas agora terão que fazer outras coisas para sobreviver. São Paulo é um leque de oportunidades para todos os imigrantes, é importante sempre fazer cursos e se atualizar para enfrentar os novos desafios”.
 


Pela TV do hospital e pela internet, Remberto acompanha os reflexos da pandemia sobre a vida das comunidades de imigrantes e refugiados que vivem em São Paulo. Lhe preocupa, especialmente, os casos de violência e xenofobia ocorridos nos últimos meses: “Tudo isto é um momento de muita reflexão. Acompanho o que acontece com a comunidade boliviana pela TV do Hospital. Inclusive, assisti num noticiário, casos de violência acontecidos no bairro do Brás, no qual um boliviano ficou ferido. Me preocupo com a minha comunidade, agora na pandemia, por conta da questão econômica e de saúde, todos devemos no unir, bolivianos, os demais latino-americanos, africanos, haitianos, todos, sem exceção.Serão tempos difíceis para os imigrantes e refugiados”, comenta.
 
Entre as grandes dificuldades enfrentadas nestes 120 dias de clausura, Remberto lamenta ter perdido amigas e amigos queridos por conta da Covid-19 e não poder prestar as últimas homenagens.  Entre as amigas que se foram, a ativista brasileira transexual Amanda Marfree, de 35 anos, que atuou como agente de prevenção no Programa Municipal de enfrentamento à DST/AIDS e era orientadora sócio educacional no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD). “Lamento muito a morte da minha amiga por conta do coronavírus. Era uma grande pessoa. Foi graças a ela que eu fiz um curso direcionado para a população trans. Ela me ajudou muito. Foi uma grande referência”, relata emocionado.
 
Ele também lamenta a morte de Bruna Varin, ativista transexual que atuava na ONG Pela Vida, que faleceu há poucas semanas por conta de um câncer. “Me avisaram pelo whatsapp. Ela foi internada num sábado e na terça-feira daquela semana faleceu. Foi tudo muito rápido. Fiquei arrasado”.
 
Entre os maiores desejos de Remberto ao sair do confinamento, é o de comer outras iguarias para além daquelas servidas diariamente no Hospital. Ele sente saudades do pão com ovo frito, de tomar chá de coca e de saborear comidas típicas da Bolívia como o Pollo Broaster (Frango Frito), Majadito boliviano (prato que leva carne, arroz, ovos, mandioca e banana) e a Sopa de Mani (Sopa de Amendoim). “Vocês brasileiros não tem muito costume de tomar sopa. Nós temos esta prática na Bolívia e o nosso prato é enorme”, brinca o boliviano.
 
Ainda sem previsão para o fim do confinamento voluntário, e sem uma vacina contra o coronavírus que possa minimizar a situação da pandemia no mundo, Remberto Suarez Roca tem a certeza de que ficará em isolamento pelo tempo necessário para cuidar do seu paciente e fornecer o apoio aos demais membros do Hospital. “Ficarei aqui na quarentena e darei o suporte necessário ao meu paciente e aos demais brasileiros. Temos que estar preparados para o futuro. Não podemos desanimar. Tudo isso passará e vamos todos nos reinventar. Temos que cuidar da nossa saúde e em breve retornamos. Florência estará firme e forte para levar alegria à todas e todos”, despede-se, fazendo um aceno por trás da Janela dos Encontros. Com passos ligeiros, Remberto volta rapidamente ao interior do complexo hospitalar, para retomar sua rotina de cuidados.
 

COMENTAR

Marque os usuários da plataforma utilizando o

Você precisa estar logado(a) para enviar sua mensagem.