Crianças e adolescentes | 30 Set 2020

Audionovela discute direitos das crianças com o público infantil

ONG Avante, de Salvador, usa ficção para falar sobre direitos fundamentais e incentivar o protagonismo dos jovens
Diariamente, um mesmo roteiro se repetia na pequena cidade de Cobre do Morro Alto. Logo que anoitecia, a menina Tina reunia os amigos na casa da avó, para ouvir e contar histórias.  Foi assim até o dia em que dona Maricota voltou para casa se queixando dos sintomas de uma doença misteriosa: dor no corpo, dor de cabeça, falta de ar. Alarmados, os adultos da cidade acharam por bem manter em segredo a doença da senhora. E coube à Tina, apesar da pouca idade, viajar à capital do estado, Centrópolis, em busca de ajuda para a avó.

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A história, ligeiramente familiar, é o ponto de partida da radionovela Centrópolis: uma espécie de podcast narrativo direcionado a crianças e adolescentes. Com episódios de cerca de 10 minutos, a novela apresenta ao público jovem conceitos que, à primeira vista, soam áridos. Questões como o direito à saúde, à educação e a cidades sustentáveis. Faz isso de maneira lúdica, entremeando as discussões ao vai-e-vem de um roteiro que busca inspiração em fontes diversas: de produções norte-americanas como Os Goonnies — filme da década de 1980 que contrapõe crianças espertas a adultos apalermados — a elementos de religiões de matriz africana. “A ficção pode ser uma aliada interessante para falar sobre defesa de direitos”, diz Ana Marcílio, coordenadora do projeto da ONG Avante, responsável pela produção. “Porque a ficção nos permite deslocar afetos. Permite que a gente desconecte da realidade em certo nível, para torná-la algo mais fácil de lidar”.

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Desde a emergência da pandemia de Covid-19, organizações de defesa de direitos de todo o país lançaram mão de histórias fictícias para falar sobre como a população poderia se prevenir contra a nova doença. O estilo das produções varia: de séries em vídeos a histórias em quadrinhos. No caso de Centrópolis, a Covid-19 não é o centro do roteiro — o vírus que vitima dona Maricota não tem nome, e paira como uma sombra sobre a história. Mesmo assim, conta Ana, o enredo da novela surgiu como uma espécie de reação à restrições impostas pela pandemia.

Desde 2017, a Avante trabalha com grupos de crianças de duas comunidades da periferia de Salvador, na Bahia. O projeto envolve oficinas e rodas de conversa destinadas a combater a violência comunitária. Trata-se daquela que se manifesta nas agressões e brigas entre adultos e crianças, ou entre as próprias crianças. “ As relações sociais são cimentadas pelo racismo, pelo machismo, pelo patriarcalismo. As atividades do projeto buscam estabelecer novos padrões de relações”, explica Ana. “A gente acredita que trabalhando com esses padrões violentos de comunicação, no futuro poderemos reduzir a insegurança pública”.  Com a pandemia, e a necessidade de promover o distanciamento social, as atividades presenciais foram interrompidas. “E tivemos de pensar novas maneiras de manter contato com as crianças, ainda que a à distância”.

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Os capítulos de Centrópolis são enviados aos participantes do projeto semanalmente por WhatsApp. O formato busca ser acessível mesmo naqueles casos em que as crianças têm dificuldades de acesso à internet. “De início, tentamos enviar mensagens em vídeos. Mas logo percebemos que a disponibilidade de dados seria um problema”, conta Ana. Por ora, quatro episódios da radionovela já forma lançados, numa média de um por semana. Os planos da Avante incluem firmar parcerias com rádios comunitárias, para levar a produção a número maior de pessoas.

Cada episódio de Centrópolis acompanha a peregrinação de Tina pelas “cidades rodeantes” em direção à capital. São pequenos municípios pobres que formam a região metropolitana de Centrópolis — uma cidade rica e cosmopolita, mas muito triste, onde os habitantes pouco conversam entre si. A cada nova cidade, Tina faz amigos e se vê às voltas com problemas que os adultos da região se mostram incapazes de resolver, e que as crianças se encarregam de equacionar.

Essa geografia ficcional da novela se inspira nas cidades satélite de Brasília. E faz referência, também, ao dia-a-dia das crianças que participam do projeto. Em tempos normais, as oficinas da Avante acontecem na ocupação Quilombo do Paraíso e em uma escola no subúrbio Ferroviário. “São regiões distantes do centro de Salvador. Essa viagem de Tina à Centrópolis remete à viagem que leva da periferia ao centro”, conta o psicólogo e educador José Diego Santos. Ele e a educadora Camila Souza formam uma espécie de equipe multitarefa, responsável pelo roteiro, produção, narração e distribuição dos episódios. São eles também que interpretam os personagens que circulam pela história. Todo programa, conta Camila, é gravado em casa, numa esquema “pandêmico” de trabalho.

Além das referências cotidianas, outra preocupação da dupla envolve produzir conteúdo para crianças e adolescentes que não infantilize os ouvintes — e que retrate esses adolescentes como pessoas críticas. Uma das temáticas subjacentes à novela é a do protagonismo juvenil, e do direito da criança de ser ouvida nas questões que têm impacto em sua vida. O direito à participação está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Mas é pouco lembrado. “É mais comum que se fale dos direitos relativos à proteção das crianças”, conta Ana.  Em Centrópolis, o tema aparece com força na atuação de Tina: uma criança cheia de opinião e iniciativa. Segundo Camila, esse é um traço presente também nas crianças que participam do projeto. “Elas convivem com as lideranças comunitárias, e já dão mostras de autonomia”, comenta.

Camila e José Diego planejam que a viagem de Tina à Centrópolis, e de volta a Cobre do Morro Alto, seja contada em 18 capítulos. Os planos incluem envolver as crianças do projeto na produção e roteirização dos episódios: a partir do décimo, ainda inédito, já é possível ouvir as vozes de algumas delas, gravadas e enviadas por áudio de WhatsApp. Há também planos para uma segunda temporada. “Mas essas são cenas do próximo capítulo”,brinca Camila. “A gente não pode dar spoilers”.

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