Opinião

Justiça criminal | 15 Dez 2020

Como é ser mãe de uma detenta no meio de uma pandemia

Para quem está do lado de fora, a saudade é grande. Para quem está la dentro, falta suporte. Visitas foram retomadas, mas são quinzenais. É pouco o tempo de contato com a família
Depoimento publicado no site Covid nas Prisões

Terça de manhã, durante uma das esperas na porta do presídio, faço esse relato sobre como é ser mãe de uma detenta no meio de uma pandemia.
Meu nome é Mônica, tenho uma filha no sistema penitenciário, no Instituto Penal Talavera Bruce, presídio feminino de Bangu, no Estado do Rio de Janeiro. Minha filha já está privada de liberdade há 6 anos.

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A vida de uma pessoa que está presa já é difícil. Eu acompanho a minha filha desde o início e é difícil porque elas não têm acesso com facilidade, como a gente tem, ao suporte que temos aqui fora de sentir uma dor de barriga ou uma dor de cabeça e ir ao médico, por exemplo. Para elas, é bem mais difícil porque o sistema não dá esse suporte. Têm muitas presas que ficam doentes por dias e com a pandemia nada disso mudou, na verdade só piorou. Além das doenças físicas, muitas delas estão com doenças mentais, problemas psiquiátricos por conta de todas as violências que sofrem no sistema.

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E isso só foi agravado durante a pandemia, pois elas não podem mais ver os familiares, foi muito tempo sem visitas, e agora elas voltaram a acontecer de 15 em 15 dias. Umas têm oportunidade de ver seus familiares e outras não porque muitos moram longe e a crise financeira piorou as condições que já eram ruins. Muitos estão desempregados e não podem mais dar suporte. Isso a pandemia piorou demais.

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Se está difícil para os familiares que estão aqui fora, para elas ficou ainda mais complicado. Nós aqui fora, podemos correr atrás de tentar alguma coisa pra melhorar, elas não podem. E com a diminuição das visitas, não tem nem quem possa ajudar.

Eu e também as outras mães ficamos tristes porque o contato que tínhamos era durante a visita, agora com a pandemia é só uma vez por mês ou de 15 em 15 dias. Nós não temos mais como nos ver e saber uma da outra.

Eu fico imaginando como está a cabeça dessas meninas aí dentro, totalmente reclusas. Essa é a minha maior preocupação porque o suporte delas somos nós familiares e agora elas estão sem isso. A gente fica com o coração apertado sabendo que elas precisam pelo menos ver a gente e entender “Ela tá bem. E eu sei que eu estou bem porque vi que a minha mãe está bem”. Que seja mãe, pai, avô...

O sistema, ele é cruel. Ele tira a dignidade e autoestima e quando temos a visita, a gente tenta resgatar isso com elas. Eu já vivi momentos muito difíceis com a minha filha no sistema. Daria um livro. Eu fui com ela no fundo do poço para trazer ela de volta.

Em uma das visitas, antes de a pandemia começar, eu falei para ela que estava começando o anúncio da doença e ela ficou preocupada, perguntando o que iríamos fazer. Eu falei “estamos juntas nessa. Não tem pandemia que vá me separar de você”.

Mas existem muitas regras. Entendo que são para preservar elas e a gente. Eu falo muito aqui, entre as guerreiras que fazem as visitas também, que é difícil sim, mas que nós vamos sobreviver. A saudade é grande, mas não queremos ver elas doentes porque nós levamos a doença lá pra dentro. Estamos seguindo as regras. Tá doendo, mas seguimos.
 

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