Opinião

Enfrentamento ao racismo | 06 Abr 2021

População negra não tem vacina nem hospital

No pior momento da pandemia de covid-19, todos correm o risco de morrer vítimas do vírus, mas o risco é distribuído de maneira desigual
Dias atrás, li nos jornais aqui do Acre duas histórias sobre mulheres que, grávidas, precisaram de atendimento de urgência durante a pandemia. Uma, esposa de um político, família com dinheiro, foi internada, fez cirurgia cesariana, e foi transferida para Brasília. Foram salvos a mulher e seu filho. A outra, pobre, foi internada, não teve acesso a UTI, foi intubada. Morreram ela e o bebê.

>>Ainda não há vacina contra o racismo

Esses casos são ilustrativos, e histórias assim se repetem pelo país. Há ainda quem diga  que o Sars-Cov-2 (o vírus causador da covid-19), não faz distinção de raça. Ao se propagar,  alcança a todos. É um pensamento equivocado. Vivemos hoje o pior momento da crise sanitária. Com o sistema de saúde em colapso, acho importante refletir sobre aspectos que mudam a gravidade da doença, seus efeitos e sequelas, de acordo com a classe e a raça dos doentes.

Desde o começo da pandemia, a população negra foi a que mais morreu vítima do novo vírus. Pretos e pardos representam 38% das pessoas internadas por covid-19 nos hospitais brasileiros — mas equivalem a 41% dos mortos. Isso aconteceu por mais de uma razão. Em primeiro lugar, o acesso a saúde não é igual para todos. Existem pessoas que não têm acesso a hospitais, UTI, exames, remédios, alimentação, repouso.

Variam, também, as condições de vida. Para muitos, falta saneamento básico, acesso a água potável e a ambiente habitável. Viver de ruma, como falamos por aqui,  com muita gente morando num espaço pequeno — partilhando tudo, sem privacidade, com a higiene comprometida —  deixa as pessoas mais vulneráveis ao vírus.

Outro aspecto que faz diferença é a alimentação, a desnutrição dos corpos negros, a luta diária e cruel pela sobrevivência. Uma pesquisa recente mostrou que metade da população brasileira não sabe se terá comida para colocar na mesa. Para muitos, arrumar o que comer é a prioridade.

O desemprego, a miséria, o subemprego. A sujeição a meios de transportes inadequados, com grande aglomeração e transmissão do vírus. A vulnerabilidade do povo negro, as desigualdades sociais e a falta de políticas públicas se tornaram mais evidentes nessa pandemia de covid-19. Tudo isso resultou em morte.

Hoje, com o sistema de saúde em colapso no país todo, pessoas ricas correm o risco de morrer à espera de atendimento. Mas o risco não é igualmente distribuído. Nunca foi. A historia do começo desse texto é testemunha dessa verdade.

Também as chances de sobrevivência são distribuídas de maneira desigual. A vacinação avança a passos lentos pelo país, resultado da irresponsabilidade criminosa do governo federal. Nesse cenário de escassez, negros são menos vacinados que brancos. O número de pessoas negras vacinadas equivale a metade do número de pessoas brancas que receberam a vacina, segundo levantamento da agência Pública.

Enquanto isso, autoridades negam a gravidade da doença, desprezam as medidas protetivas como máscara, distanciamento social e lockdown.  Tudo isso confunde e penaliza os mais vulneráveis. A ciência aponta uma orientação, o presidente da república diz o oposto, desfaz e ironiza.

No Acre, o flagelo da pandemia foi agravado por uma inundação que atinge a periferia da capital e vários municípios.  Há ainda um surto de dengue que contribui para ceifar a vida de muitos. Há que se considerar que esses fenômenos também atingem e afetam mais o povo negro e pobre.

Com as condições acima citadas o resultado numérico de óbitos dessa pandemia evidencia um grande genocídio, por ineficiência e maldade do poder público.

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