História

Povos indígenas | 15 Abr 2021

Como guardiões da floresta protegem o território Kraho-Kanela no Tocantins

O líder indígena Wagner Katamy conta como grupos de vigilantes percorrem o território para evitar invasões de madeireiros e combater focos de incêndio
por Wagner Katamy Krahô-Kanela, em depoimento a Rafael Ciscati

A aldeia Lankraré, do território Krahô-Kanela, no Tocantins, é onde vivo hoje e de onde vieram meus antepassados.  Mas nem sempre foi assim. Não foi aqui que eu nasci. Por anos, o povo Krahô-Kanela lutou para  voltar aos seus territórios tradicionais, depois de ser expulso deles nos anos 1970. Nossos territórios só foram parcialmente retomados em 2006. Desde então, nos empenhamos para cuidar dessa terra — nosso bem comum, e nosso legado para as próximas gerações.

Hoje, aos 34 anos, sou presidente da Associação do Povo Indígena Kraho-Kanela - Apoinkk. Sou também um dos guardiões  da floresta que zelam por essas matas. Nosso trabalho  de vigilância começou em 2011. Naquela época, eram frequentes as tentativas de invasões. Nosso território vinha sendo destruído: ora pelo gado de fazendeiros, ora pelo fogo. Pessoas invadiam nossas terras para tirar madeira ilegalmente, e havia muitos caçadores clandestinos. Entendemos que era preciso fazer algo.

Foi como surgiram nossos grupos de guardiões. Batizamos o projeto de Irom Cati, que significa “mata grande”. Mensalmente, um grupo diferente de guardiões sai da aldeia e percorre todo o território. Eu acompanho todas as expedições. Nessas ocasiões, passamos sete dias distantes da aldeia. Percorremos a área demarcada e também nossa área de pretensão: um território ancestral que reivindicamos na justiça.



Desde de 2011, avançamos em algumas conquistas. Hoje, contamos com uma base dentro da floresta, afastada da aldeia. O trabalho pode ser exaustivo. O território Krahô-Kanela é entremeada por rios e lagos. Entre os meses de janeiro e maio, esses muitos corpos d’água transbordam, inundando a região. Nesse período, percorremos a maior parte do trajeto por barco. Cruzamos cerca de 60km. Nos demais meses, o monitoramento é feito por carro, mas apenas em parte. Há regiões de mata mais fechada, onde os veículos não penetram. E por onde seguimos à pé.

Esse trabalho nos permite identificar grupos de madeireiros que, porventura, tenham invadido o território. Nos permite, também, identificar e combater focos de queimadas.

Nosso empenho foi especialmente importante em 2019. Naquele ano, o número de focos de incêndio nas terras indígenas brasileiras deu um salto. Calculamos que 95% do nosso território foi afetado pelo fogo, em alguma medida. Combatemos focos que avançaram até 2km de distância da aldeia. Muitos animais morreram, e muita coisa se perdeu. Mas persistimos.

Persistimos porque esse trabalho, essencial para a nossa permanência nessas terras, também nos traz prazeres. Durante as expedições, incluímos pessoas de diferentes idades. De adultos jovens a anciãos. Percorremos, com eles, os lugares onde nosso povo morou. Os lugares onde nosso povo pesca, caça, coleta sementes. Com isso, cresce  a consciência de que precisamos cuidar desse território.

Nossas atividades só foram afetadas, em 2020, pela pandemia de covid-19. Nesses meses, o trabalho de vigilância arrefeceu, e centramos energias na criação de barreiras sanitárias. A intenção era evitar que invasores trouxessem o novo vírus para a aldeia. Tivemos três casos da nova doença. Hoje, todos e todas passam bem. As pessoas contaminadas foram tratadas na aldeia, não precisaram de internação.

Mas vamos seguir com o trabalho de vigilância, que precisa ser fortalecido. Com ele, mostramos para a sociedade no entorno da terra indígena que essa terra tem dono. O usofruto é nosso. Muita gente acha que terra indígena é sinônimo de terra de ninguém. Longe disso.

Por isso, seguiremos com o trabalho. Porque nosso povo tem o direito de, no futuro, conhecer a mata. Conhecer a água, os peixes, a caça. As coisas que nossos antepassados conheceram. Nossa origem, nossa história, nossa cultura e modo de vida.

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