Migrações

Boliviano se isola por 4 meses em hospital para cuidar de paciente brasileiro

Sociólogo e pesquisador sobre migrações e refúgio   Quando o governo de São Paulo decretou quarentena pelo novo coronavírus em todo o estado, no dia 22 de março, lojas de artigos não essenciais fecharam as portas, parques foram esvaziados, e o trabalho feito em escritórios migrou para um esquema de home office. Num momento em que as pessoas se isolavam em casa, o boliviano Remberto Suarez Roca decidiu que deveria sair da dele. >> Sem conseguir apoio emergencial, imigrantes criam redes de apoio mútuo    Remberto tem 33 anos, 6 deles vividos no Brasil. Na comunidade boliviana de São Paulo, é conhecido por encarnar a drag queen Florência Transformista — uma personagem animada que, por meio do humor e da poesia, discute temas caros à comunidade LGBTI+ migrante que vive na cidade e na região metropolitana. Em 2018, Florência foi premiada no 7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes, organizado pelo Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), com uma poesia que mencionava a luta pela igualdade e a reverência a Pachamama (Mãe Terra em Quechua – língua dos povos originários presentes nos Andes).   Para além dos eventos relacionados à temática de direito humanos, Remberto já atuava como cuidador de idosos. No final de março, foi contratado para cuidar de um paciente que utiliza cadeira de rodas e está em reabilitação no Hospital Premier, localizado na zona Sul de São Paulo. Dois dias depois da contratação, foi decretada a quarentena. Desde então, os diversos profissionais que atuam no hospital — médicos, enfermeiros, cuidadores, funcionários da limpeza, cozinheiros, ente outros —  estabeleceram um pacto voluntário de não sair para a rua e nem sequer retornar para suas respectivas casas.  O objetivo é reduzir os riscos de contaminação e propagação da Covid-19 no interior do hospital, considerando que os pacientes são de alto risco: muitos são idosos que necessitam de cuidados paliativos. >>Imigrantes e os labirintos da economia informal no Brasil   Remberto aderiu ao pacto já de saída. Na quarta-feira, 22, vai completar 4 meses longe de casa.  “Precisamos nos reinventar e nos conhecer melhor por conta desta pandemia do novo coronavírus. É um momento apocalíptico que ninguém esperava”, destaca ele.  “Foi necessário eu estar aqui para cuidar do meu paciente, não vou deixá-lo. Ele está em processo de reabilitação pois teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Junto de mim, outros profissionais dão o máximo para cuidar de todas e todos, muitos são idosos e necessitam de uma atenção especial e redobrada”, destaca. >> Imigrantes africanos e haitianos criam iniciativas para enfrentar a Covid-19   No universo de mais de 200 pessoas que hoje vivem no hospital, Remberto é o único imigrante. “Todos temos interagido bem neste momento em que a solidariedade é importante. Agora somos todos uma família, ficamos juntos 24 horas. Temos um quarto que divido com os colegas. Não conheço muito a região, ou melhor, não conheço nada. Lembro que no 1º dia de trabalho no mês de março, desci do trem, caminhei pela Avenida Berrini até aqui e não saí mais. Me falaram que tem um shopping aqui perto, é verdade?”, indaga.   Oriundo de Trinidad, capital do departamento de Beni, a 500 km da cidade de Santa Cruz de la Sierra, ele mantém contato por whatsapp com seus familiares que estão na Europa. “A saudade é forte, mas tenho uma missão a cumprir”, relata.   Num sábado recente, no começo de julho, a agente social do CAMI, a boliviana Grécia Delgado — que atua no trabalho de base da instituição — visitou Remberto. Para evitar o contato físico, os pacientes e profissionais que lá atuam ficam numa pequena área externa separados por um grande vidro, que os isolam do contato físico do mundo exterior. É a “Janela dos Encontros – o que o cuidado une, barreira nenhuma separa”.  Diante dela, os visitantes estabelecem vínculos de afeto com pacientes e profissionais, ainda que separados pelo vidro. “A direção do Hospital criou este protocolo para evitar o contágio. Neste período, não tivemos nenhum caso de coronavírus entre nós, profissionais e pacientes”, ressalta Remberto. “Fomos destaques até numa matéria do New York Times”, relata entusiasmado.   Mantimentos, roupas e outros materiais hospitalares que chegam, cumprem as medidas sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS). Além de serem higienizados, ficam em uma área protegida por alguns dias até o vírus deixar de sobreviver na superfície (no caso de estarem contaminados). Só após estas medidas cautelosas é que são colocados de fato dentro do hospital.   Alguns profissionais de saúde, pacientes e cuidadores, passavam nos corredores ao fundo do vidro enquanto Remberto e Grécia conversavam. Um deles, um médico (conhecido do entrevistado), tocava uma música erudita no piano instalado na recepção, como forma de entreter os confinados. Remberto comentou diversas situações ocorridas durante o seu confinamento voluntário e refletiu sobre a comunidade migrante na cidade de São Paulo e seu personagem: “Florência está parada, não posso atuar no momento. Muitos que eram artistas agora terão que fazer outras coisas para sobreviver. São Paulo é um leque de oportunidades para todos os imigrantes, é importante sempre fazer cursos e se atualizar para enfrentar os novos desafios”.   Pela TV do hospital e pela internet, Remberto acompanha os reflexos da pandemia sobre a vida das comunidades de imigrantes e refugiados que vivem em São Paulo. Lhe preocupa, especialmente, os casos de violência e xenofobia ocorridos nos últimos meses: “Tudo isto é um momento de muita reflexão. Acompanho o que acontece com a comunidade boliviana pela TV do Hospital. Inclusive, assisti num noticiário, casos de violência acontecidos no bairro do Brás, no qual um boliviano ficou ferido. Me preocupo com a minha comunidade, agora na pandemia, por conta da questão econômica e de saúde, todos devemos no unir, bolivianos, os demais latino-americanos, africanos, haitianos, todos, sem exceção.Serão tempos difíceis para os imigrantes e refugiados”, comenta.   Entre as grandes dificuldades enfrentadas nestes 120 dias de clausura, Remberto lamenta ter perdido amigas e amigos queridos por conta da Covid-19 e não poder prestar as últimas homenagens.  Entre as amigas que se foram, a ativista brasileira transexual Amanda Marfree, de 35 anos, que atuou como agente de prevenção no Programa Municipal de enfrentamento à DST/AIDS e era orientadora sócio educacional no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD). “Lamento muito a morte da minha amiga por conta do coronavírus. Era uma grande pessoa. Foi graças a ela que eu fiz um curso direcionado para a população trans. Ela me ajudou muito. Foi uma grande referência”, relata emocionado.   Ele também lamenta a morte de Bruna Varin, ativista transexual que atuava na ONG Pela Vida, que faleceu há poucas semanas por conta de um câncer. “Me avisaram pelo whatsapp. Ela foi internada num sábado e na terça-feira daquela semana faleceu. Foi tudo muito rápido. Fiquei arrasado”.   Entre os maiores desejos de Remberto ao sair do confinamento, é o de comer outras iguarias para além daquelas servidas diariamente no Hospital. Ele sente saudades do pão com ovo frito, de tomar chá de coca e de saborear comidas típicas da Bolívia como o Pollo Broaster (Frango Frito), Majadito boliviano (prato que leva carne, arroz, ovos, mandioca e banana) e a Sopa de Mani (Sopa de Amendoim). “Vocês brasileiros não tem muito costume de tomar sopa. Nós temos esta prática na Bolívia e o nosso prato é enorme”, brinca o boliviano.   Ainda sem previsão para o fim do confinamento voluntário, e sem uma vacina contra o coronavírus que possa minimizar a situação da pandemia no mundo, Remberto Suarez Roca tem a certeza de que ficará em isolamento pelo tempo necessário para cuidar do seu paciente e fornecer o apoio aos demais membros do Hospital. “Ficarei aqui na quarentena e darei o suporte necessário ao meu paciente e aos demais brasileiros. Temos que estar preparados para o futuro. Não podemos desanimar. Tudo isso passará e vamos todos nos reinventar. Temos que cuidar da nossa saúde e em breve retornamos. Florência estará firme e forte para levar alegria à todas e todos”, despede-se, fazendo um aceno por trás da Janela dos Encontros. Com passos ligeiros, Remberto volta rapidamente ao interior do complexo hospitalar, para retomar sua rotina de cuidados.  

Migrações

Imigrantes e os labirintos da economia informal no Brasil

Por Jorge Fofano Junior, para o ITTC O Brasil vinha sendo um destino procurado por milhares de pessoas, ecoando parte da magnitude dos fluxos migratórios que se estabeleceram no país entre meados do século XIX e início do século XX. Dados levantados em 2018 pelo Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais, veiculado no portal do Ministério da Justiça e Segurança Pública, aponta que, entre 2010 e 2018, mais de 700 mil imigrantes chegaram ao Brasil. A maior parte provem de países do continente americano, como Haiti, Venezuela, Bolívia, Colômbia e Uruguai; em menor escala, constata-se a vinda de mulheres e homens da África do Sul, Cabo Verde e Angola. >>Imigrantes africanos e haitianos criam iniciativas para enfrentar a Covid-19 Em termos gerais, esse novo fluxo migratório se relaciona mais com fatores de repulsão do que atração, dado que não há incentivo formal do Estado brasileiro em atrair esse novo contingente populacional, tampouco a conjuntura econômica do país tem sido favorável a esse acomodamento. O que se percebe é que, para milhares de pessoas, a precariedade das condições de vida em seus países de origem são tais que a mudança para uma realidade desconhecida, ainda que ofereça pouca segurança quanto ao planejamento econômico e familiar, é vista como um bom custo oportunidade. >>Covid-19: sem conseguir renda emergencial, imigrantes criam redes de apoio mútuo Todavia, o ingresso pelas fronteiras brasileiras não representa o maior dos desafios para esses grupos. Procurando se estabelecer nas grandes cidades, os imigrantes encaram a realidade de uma economia urbana cada vez mais desigual em termos de oportunidade e renda gerada. Nesse sentido, duas palavras-chave, que definem fenômenos recentes potencializados pelas flexibilizações trabalhistas, ajudam a entender o momento brasileiro: informalidade e uberização do trabalho (gig economy). São precisamente esses termos que adquirem tom e gravidade na rotina de milhares de haitianos, colombianos, venezuelanos e tantas outras nacionalidades que trabalham nos centros de comércio de metrópoles como São Paulo ou Rio Janeiro. Para grande parcela das famílias migrantes, a vida é ganha diariamente, ritmada no compasso do improviso de um dia poder montar sua barraca de comida, tecidos, roupas ou artigos eletrônicos e no outro ter de fugir do “rapa” (fiscalização municipal). A alternativa mais “estável” fica por conta de fazer entregas em aplicativos, ressaltando que a “vantagem” de se ter sempre trabalho disponível implica jornadas extenuantes, sob o perigo constante de acidentes de trânsito e do contágio pelo novo coronavírus; como faltam opções e o sustento de casa precisa ser adquirido, aceita-se diversos riscos e adversidades para ganhar R$7 a cada 10km percorridos Assim, de uma maneira ou outra, as pessoas migrantes se somam aos mais de 39 milhões sem carteira assinada que hoje fazem circular uma economia subterrânea no Brasil. Os dados que mostram a inserção quase automática desse novo fluxo migratório no mercado informal vêm de múltiplas frentes e fontes. Em novembro de 2019, no Boletim do Banco de Dados publicado sob o título ‘Gênero x Trabalho: Olhando Para As Condições Socioeconômicas de Mulheres Migrantes Em Conflito Com a Lei’, o ITTC mostra como a informalidade ocorre no recorte das mulheres migrantes: 65% das entrevistadas trabalham sem qualquer vínculo empregatício, sendo empregadas domésticas, babás, cabeleireiras e manicures. A pesquisa ainda indica a influência do fator de gênero, ao passo que ocupações tradicionalmente associadas às mulheres têm maior chance de serem informais. Ainda que para mulheres e homens imigrantes a falta de escolaridade possa despontar como fator para a permanência na informalidade, ele não consegue explicar sozinho esse grande montante de pessoas que não dispõem de qualquer garantia trabalhista para exercer seu ofício. Há, na realidade, uma macrotendência pela precarização dos postos de trabalho, mais proeminentemente observável no setor terciário, que cresce de certo modo descolada da oferta de mão de obra escolarizada. Em outras palavras, é incerto – tanto para imigrantes quanto para brasileiros – que a formação escolar média, ou superior se traduza em maior absorção no mercado de trabalho atual. A economia brasileira, portanto, está diante de um impasse: embora ciente de que a informalidade corrói a produção de riqueza nacional e a arrecadação do estado, o que será letal para a recuperação econômica após a pandemia, as decisões políticas e econômicas estabelecidas – ditas liberalizantes – se afastam da resolução do problema a partir, por exemplo, da criação de empregos CLT e investimento em estratégias de qualificação dos trabalhadores imigrantes e brasileiros; ao invés disso, essas mesmas decisões contribuem para aumentar a informalidade e alargar as bases de uma economia pouco integradora e eficaz. A simbiose do mal: coronavírus e a informalidade Considerado como o novo epicentro da pandemia de covid-19, o Brasil se aprofunda numa crise sanitária e econômica sem precedentes. Com relação ao campo econômico, apesar das consequências a longo prazo ainda serem incertas, alguns efeitos já começam a  aparecer; entre eles está a acachapante queda de renda per capita das classes mais pobres, estrato do qual participa a maioria dos novos imigrantes. A razão desse decréscimo está atrelada às medidas de isolamento social, incompatíveis com a estrutura da economia informal que se realiza no comércio de rua e nos pequenos estabelecimentos. Assim, produz-se uma situação em que trabalhadoras e trabalhadores se veem entre a cruz e a espada: arriscar-se a contrair o vírus na rua, com a certeza de que irá encontrar um sistema de saúde saturado, ou permanecer em casa sem ter renda. Essa realidade mostra o lado mais perverso da informalidade que assola o país, fazendo proliferar histórias como a da senegalesa que precisou viver de pão e água por três dias, pois o dinheiro do gás e da comida já havia acabado. Estima-se que mais da metade da população economicamente ativa da América Latina se encontre em situação semelhante. Sem agir com rapidez para com os desprotegidos, o governo brasileiro não tem sido capaz de zerar as filas de espera para o auxílio emergencial, inicialmente previsto em 3 mensalidades de R$600. Pelo contrário, desde abril, multiplicam os casos de fraude, indeferimentos indevidos, lentidão de processamento dos pedidos e requerimento ilegal de documentação nacional para imigrantes. Mesmo que milhões de pessoas que não tenham conseguido acessar a renda emergencial, o governo avalia reduzir as novas parcelas para R$200, segundo pressão da equipe econômica.  Ao atingir em cheio a base informal da economia brasileira, o coronavírus acelera a desigualdade entre as parcelas da população, indicando que os mais ricos tendem a sair , a curto prazo, intocados, enquanto os mais pobres – com especial atenção aos grupos de imigrantes informais –  terão seu poder de renda reduzidos para o nível de décadas atrás.  Sem salvaguardar a base trabalhadora e injetar recursos em sua microeconomia, o Brasil sofrerá com a  violenta retração do PIB, amplo processo de deflação e aumento de desempregados e desalentados. Persistido o cenário, a recessão se transformará em uma depressão, deixando para trás milhões de pessoas do futuro brasileiro.   Publicado originalmente em: Imigrantes e os labirintos do trabalho informal   

Migrações

Imigrantes africanos e haitianos criam iniciativas para enfrentar a Covid-19

Alex Vargem Sociologo e pesquisador sobre imigração e refúgio Logo que  percebeu a gravidade da pandemia do novo coronavírus, o haitiano Oscar* decidiu por mãos à obra. Embora prefira não ser identificado nessa matéria, Oscar é uma referência para mais de 400 famílias de haitianos que vivem num bairro no extremo leste da capital paulista. Entendeu que a pandemia afetaria a oferta de trabalho na capital — e talvez levasse fome a seus conterrâneos. Com a ajuda dos vizinhos e amigos, organizou uma grande campanha de arrecadação e distribuição de alimentos.“Temos que agir, encontrar soluções e cobrar ações do poder público o tempo todo. Não podemos parar ou seremos esquecidos”, afirma ele. Oscar ainda criou materiais de comunicação — áudios, com informações importantes sobre como se proteger contra o  Sars-Cov-2, o novo coronavírus — e que ele distribui por grupos de whatsapp. São informes feitos por órgãos oficiais, ou por organizações sociais e disponíveis em português, mas que ele traduz para o créole haitiano.  Desde que o estado de São Paulo decretou o fechamento de serviços não essenciais, em meado de março, iniciativas como a capitaneada por Oscar* se repetem pela capital paulista. São ações desenhadas por imigrantes haitianos e africanos de diversas origens, que se organizam para prestar ajuda a suas comunidades e para cobrar ações do poder público. Além de temer ser vítimas do vírus, e das dificuldades econômicas decorrentes da pandemia, essas populações de imigrantes enfrentam problemas adicionais. Faltam informações disponíveis em seus idiomas de origem, dizem eles, algo que dificulta a prevenção. Xenofobia e racismo — elemento estruturante da sociedade brasileira — não dão trégua durante a pandemia. Mesmo em situação adversa, lideranças imigrantes assumem posições de protagonismo, para proteger suas família e comunidades. “Apesar da pandemia, mulheres africanas que vivem em São Paulo seguem reivindicando direitos. São mulheres fortes que fazem de tudo para amparar suas crianças e suas famílias”, diz a congolesa Claudine Shindany. Claudine trabalha no setor de regularização migratória do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (Cami). Localizada num bairro central de São Paulo, a organização presta apoio a migrantes que vivem por toda a capital e região metropolitana. Claudine acompanha, de perto, o dia-a-dia dessas comunidades. "Nestes tempos, vivemos grandes problemas. Ainda persistem manifestações racistas”, conta ela.  Para os imigrantes negros que vivem em São Paulo, sobreviver à pandemia significa estreitar vínculos de solidariedade. Eles são essenciais frente ao vírus, e frente ao racismo estrutural próprio da sociedade brasileira, cuja violência recrudesce ante a pandemia. No Brasil, pessoas negras têm chances maiores de ser vítimas do novo coronavírus. Segundo boletim epidemiológico do ministério da Saúde do dia 8 de maio, pretos e pardos já somam mais da metade (50.1%) das vítimas da nova doença.  Prosper Diganga, da República Democrática do Congo. Para ele, preocupa a intenção de testar vacinas na África (Divulgação) Frenta a necessidade de isolamento social, o  ativismo dessas lideranças precisou ser reorganizado. A rápida propagação da Covid-19 exigiu que reuniões presenciais e protestos de rua cedessem lugar a ações articuladas pela internet. A jornalista Deborah Ndefru, da República Democrática do Congo, manteve ativo seu canal no Youtube, por exemplo. Por lá, em reportagens narradas em francês e lingala (língua falada em algumas regiões da África), ela se comunica com sua comunidade sobre temas diversos. Deborah relata a situação e as estratégias da comunidade frente à pandemia: "Aqui na minha região na zona leste de São Paulo há mais de 300 famílias de angolanos e congoleses, muitas mulheres com filhos. Ainda não há casos de coronavírus entre nós, pois nos precavemos antes mesmo da quarentena. Muitos conseguiram, mas há alguns com dificuldade da obtenção do auxílio emergencial e há dúvidas de como se cadastrar para obter o CPF. A ajuda é importante, mas tem que ser dialogada, realizada de forma horizontal, sem ninguém tirar vantagem da nossa situação. Vivemos das diversas ações criadas pela própria comunidade, considerando que muitos moram de aluguel ou em prédios ocupados", relata. Entre grupos de imigrantes, a importância de se fazer ouvir, e a necessidade de combater estigmas raciais, é tópico de discussão constante. Aos africanos que moram no Brasil, preocupa especialmente a maneira como os países daquele continente são retratados. A notícia de que uma possível vacina poderia ser testada em populações africanas gerou consternação. A intenção foi anunciada por médicos franceses — e criticada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Prosper Dinganga, oriundo da República Democrática do Congo, residente no Brasil há 7 anos, é idealizador do Projeto A Voz do Congo, cujo objetivo é  tratar temas da situação social, política e econômica do seus país e do continente africano. Ele realiza o ativismo transnacional, e comenta o assunto: "Somos filhos da África e não podemos aceitar que nosso continente seja um grande laboratório para que africanos, mulheres e homens, sejam testados com vacinas por decisões dos ocidentais. São pessoas de fora do continente africano que não podem decidir sobre o nosso futuro. Não somos cobaias! Não somos ratos de laboratório do mundo ocidental. A época da colonização acabou!  Não cabe a eles decidir sobre o futuro da África. Somos seres humanos e queremos ser respeitados", destaca. Prosper também critica o tratamento dado aos africanos na China, pois muitos são apontados de serem transmissores do coronavírus, impedidos de entrar nos restaurantes, shoppings e demais estabelecimentos públicos depois que a população local saiu da quarentena. “A sociedade civil tem que condenar estes atos xenofóbicos, pois é propagado boatos sobre a população africana. Não podemos aceitar isso”, declara. Artistas que residem em São Paulo também criticaram a testagem da vacina contra o novo coronavírus na África, como o rapper senegalês Kunta Kinte. Por meio de suas redes sociais, ele realizou uma live de música e denúncia para o seu público sobre a testagem da vacina no continente. "Estamos aqui para falar que estamos contra a testagem da vacina na África, somos artistas e como somos porta-voz do nosso povo, nós africanos estamos contra". No começo de abril, o diretor geral da OMS, Tedros Adhanon, reagiu à discussão dizendo que a África não será um campo de testes para vacinas contra o novo coronavírus. O luto longe de casa Para quem vem de fora, e hoje vive no Brasil, o temor de ser vítima do vírus assume significados novos. Entre os que perderam familiares e compatriotas no Brasil ou em outros países, em plena pandemia, a dor da perda é agravada, em alguns casos, pela ausência no funeral. O luto na diáspora dificulta  o cumprimento das obrigações culturais necessárias junto aos familiares, em alguns casos, realizados à distância. Neste prisma, a importância dos cultos aos sagrados das diversas religiões, a preocupação com a saúde mental, o medo da morte no país dos "outros", são questões importantes para compreender como os africanos e haitianos lidam com a problemática e o temor de serem infectados e morrerem no Brasil. "Temos medo de nos infectarmos e morrermos aqui, longe de casa, longe dos nossos familiares, sem ser realizado nossos rituais, feitos em nossa terra. É preciso todos os cuidados possíveis para não se infectar com o Covid-19!", diz o africano Jean*.  Para o psicólogo Antônio*, o contexto exige dos imigrantes especial cuidado com a saúde psicológica ."Não podemos deixar de nos cuidar, manter a saúde mental é essencial nestes tempos difíceis”, afirma. Angolano, Antônio trabalha no sistema de saúde de São Paulo. É um dentre muitos médicos, enfermeiros e psicólogos que, no meio da emergência sanitária, atuam na linha de frente contra a Covid-19 no Brasil. É um papel importante e que, segundo ele, passa muitas vezes despercebido pelos brasileiros. “Somos africanos, já passamos por muitas situações em nosso continente, enfrentaremos mais essa, agora na diáspora", relata. *Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados Foto de topo: A congolesa Claudine Shindany (arquivo pessoal)

Migrações

Covid-19: sem conseguir renda emergencial, imigrantes criam redes de apoio mútuo

Já era começo de uma noite de sexta-feira quando a boliviana Julieta Alejo enviou uma mensagem ao grupo de whatsapp que mantém com conterrâneos: “Olá. Será que alguém poderia ajudar uma família que precisa de alimentos?”, conta ter escrito. O apelo não era em benefício próprio.  Dias antes Camila* – uma jovem boliviana, vizinha de Julieta no bairro onde moram em Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo – batera à porta da família Alejo. Buscava trabalho: “Eu sabia que ela precisava de comida. Para si e para os filhos. Mas tinha vergonha de pedir”, diz Julieta.  >>Migrantes da indústria têxtil enfrentam impactos da Covid-19 Julieta não tinha nada a oferecer. Desde que o estado de São Paulo decretou o fechamento de todos os serviços não essenciais – uma medida importante para frear o avanço do novo coronavírus, o Sars-Cov-2 – ,no final de março, Julieta e a família viram sua renda desaparecer. Há 8 anos, ela e o marido mantêm uma pequena oficina de costura em casa. As peças que produzem são destinadas a uma loja no bairro paulistano do Bom Retiro. Com a quarentena, a produção teve de parar: “O dono da loja encerrou as compras. Recebemos nosso último pagamento em março”. Na casa da família, a comida na dispensa míngua conforme o dinheiro escasseia. “Às vezes, as crianças sentem fome, e a gente não sabe o que dizer”, conta ela, que tem seis filhos. Hoje, uma refeição típica na casa dos Alejo se resume a batata e arroz. “Comemos, também, muito ovo. Porque a carne é cara”. >>Isolados pela Covid-19, indígenas temem passar fome no Mato Grosso do Sul Para resistir à pandemia, Julieta espera receber o auxílio emergencial aprovado pelo governo federal. Ela fez o cadastro que, até esta quarta-feira, estava em análise. São R$600,00, pagos a profissionais autônomos e famílias de baixa renda, aos quais os estrangeiros que vivem no país também têm direito. Uma ajuda que Camila, a vizinha que buscou socorro na casa de Julieta, não conseguiu requisitar. Grávida de oito meses, Camila e o marido vivem em um casa de três cômodos, com os dois filhos pequenos. Falam pouco e mal o português. Quando chegaram ao Brasil, se lançaram ao trabalho numa oficina de costura. Não houve tempo, ou dinheiro, para providenciar um documento hoje essencial –  a  Carteira de Registro Nacional Migratório, ou CRNM. Uma espécie de RG para estrangeiros, que lhe permitiria abrir uma conta digital, onde o dinheiro do auxílio seria depositado. Hoje, com os postos da Polícia Federal fechados devido à pandemia, Camila não consegue pedir o registro e regularizar sua situação migratória.  >>Covid-19: jovens de Belém ensinam prevenção com humor Desde que o pagamento do auxílio emergencial foi anunciado, no começo de abril, surgem dúvidas quanto a como permitir que imigrantes residentes no Brasil tenham acesso ao benefício. Instituições que acompanham essa população relatam problemas. Há casos de pessoas cujo CPF está irregular, porque no registo não constam dados de filiação: algo comum nos documentos brasileiros, mas que não se repete em outros países da América Latina. Os obstáculos são ainda mais aflitivos para pessoas como Camila e sua família. Eles fazem parte de um contingente de imigrantes cuja situação migratória está irregular, ou a quem faltam documentos. Vivem, hoje, numa espécie de limbo jurídico, sem resolução à vista: “Para todos os efeitos, os imigrantes indocumentados são invisíveis para o Estado brasileiro”, conta a advogada Karina Quintanilha, especializada em direito migratório e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A avaliação consta em dois ofícios propostos por representantes da sociedade civil ao Conselho Municipal de Imigrantes de São Paulo, para  ser enviados à Receita Federal e à Caixa Econômica Federal . O Conselho é um órgão consultivo, ligado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Nos textos, afirma que as atuais regras impostas para o recebimento do auxílio criam entraves para famílias de estrangeiros residentes no Brasil. A primeira dessas dificuldades diz respeito à regularização e emissão do CPF. Além da falta dos dados de filiação, há imigrantes que não dispõem de comprovantes de endereço, necessários para providenciar o documento. É o caso daqueles que vivem na rua, em cortiços e ocupações. Os ofícios relatam, também, casos em que a emissão do documento foi negada em razão da nacionalidade.  Apontam, ainda, a necessidade de mudanças nas regras para a abertura de uma conta eletrônica na Caixa. A medida é necessária no caso daquelas pessoas que não dispõem de conta em banco. Hoje, a Caixa pede que o futuro titular da conta informe seu RG: “Trata-se de um documento restrito aos brasileiros”, explica o texto da comissão de migrantes. O grupo pede que a demanda seja alterada, para permitir à pessoa informar o CRNM, CPF ou mesmo a cédula de identidade do país de origem, no caso de não ter qualquer desses documentos. Sem documentos, e sem alternativas, restou à Camila buscar auxílio entre os conhecidos. A mensagem que Julieta disparou naquela noite foi lida por cerca de 20 famílias de bolivianos que ela acompanha em Carapicuíba. Julieta é uma agente multiplicadora – uma voluntária formada pelo Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI). A instituição, com sede na região central de São Paulo, presta auxílio e orientação a imigrantes. Reúne interessados – na maioria, mulheres — em rodas de conversa e cursos que informam sobre os direitos de que eles dispõem no Brasil.   Em tempos normais, Julieta circula pelas ruas do bairro, instruindo vizinhos recém-chegados sobre como regularizar sua situação migratória. Ou como requerer auxílios sociais. Camila costumava participar das rodas de conversa organizadas por ela. Em torno de agentes como Julieta, formam-se redes de ajuda mútua, que agora se articulam, por whatsapp, para resistir à pandemia: “As redes que essas agentes formam alcançam cerca de 1022 famílias, em 11 bairros de São Paulo e da região metropolitana”, diz a advogada Mirta Castellón, que coordena a formação das agentes no Cami.  Naquela noite, a rede de Julieta atendeu ao chamado. “Ninguém tinha dinheiro, mas cada um contribuiu com um pouco de comida. O suficiente para montar 3 cestas de alimentos”, conta. Havia arroz, óleo, feijão e açúcar. Além de Camila, as doações beneficiaram outras duas famílias bolivianas do bairro. Os alimentos foram entregues no domingo de Páscoa. Na ocasião, a católica Julieta não atentou para o simbolismo da data: “É verdade, era Páscoa”, riu. “Para nós não teve Páscoa. Passamos tristes, foi um dia comum”.  Cerca de 1,1 milhão de estrangeiros vivem hoje no Brasil, de acordo com dados da Polícia Federal. O número se refere a imigrantes cuja situação migratória está regularizada, e que dispõe de documentos. Nesse grupo, a maioria é de portugueses, seguidos de perto por Venezuelanos, Haitianos e Bolivianos. Não há estimativas seguras de quantos estrangeiros indocumentados residam no país, mas é possível que esse número dobre, de acordo com o CAMI.  Especialistas que acompanham essas pessoas afirmam que, mesmo que tenham documentos, e possam acessar benefícios sociais, esses imigrantes compreendem uma parcela da população especialmente vulnerável aos impactos da pandemia.  Doações acumuladas na casa da psicóloga boliviana Lineth Bustamante. Grupo distribui leite e fraldas a família com crianças (foto: Lineth Bustamante) As razões para essa vulnerabilidade são econômicas e culturais. Números do Centro de Referência e Atendimentos para Imigrantes (CRAI) da cidade de São Paulo mostram que a maioria dos estrangeiros atendidos pela instituição entre 2014 e 2019 dizia estar desempregada ou na informalidade. As pessoas nessas condições somavam 75% do total. Parcela importante desse grupo trabalha em oficinas de costura que, com as lojas fechadas, não têm a quem vender. Muitos moram em casas alugadas sem contrato formal. É o caso de Julieta e de Camila, que temem ser despejadas: “Já combinamos com o proprietário de diminuir o número de cômodos que a gente aluga”, diz Julieta. Para conter custos, a família passará a morar em dois cômodos pequenos.  Por fim, entre os imigrantes indocumentados, a vulnerabilidade aumenta ante a impossibilidade de acessar serviços de proteção social: “Essa situação é resultado de políticas de indocumentação que dificultam o acesso à direitos. Além disso as barreiras com a língua, o desconhecimento das leis no Brasil, o racismo e a xenofobia são um desafio a mais, que estão se agravando com a pandemia” diz a advogada Karina Quintanilha, da Unicamp. Ela é uma das articuladoras do Fórum Fontie Ki Kwaze, que reune imigrantes, acadêmicos e representantes da sociedade civil para acompanhar as demandas das populações de imigrantes no Brasil. “ Estamos acompanhando situações dramáticas de fome e desespero. Em cidades como Nova York, com grande concentração de imigrantes indocumentados, já sabemos que latinos e negros estão entre as principais vítimas dessa pandemia, principalmente em razão da falta de políticas que garantam a quarentena e a prevenção de forma igual para todos". Na Europa, cientes dessas vulnerabilidades, autoridades se movem para facilitar o processo de regularização migratória. No começo de abril, Portugal concedeu cidadania plena a todo estrangeiro residente no país. A medida visa garantir que eles sejam atendidos, sem entraves, pelo sistema de saúde português. Até agora, a resposta brasileira a esses desafios é considerada insuficiente: “Por aqui, faltam coisas ainda simples. Como orientações de saúde traduzidas para diferentes idiomas.”, diz a psicóloga boliviana Lineth Bustamante. Lineth é uma das colaboradoras voluntárias da Associação de Mulheres Imigrantes Luz e Vida. O grupo foi criado, há 5 anos, por imigrantes bolivianas e peruanas que viviam em Guaianazes, bairro no extremo leste de São Paulo. O objetivo era atuar no combate à violência de gênero. A chegada do novo coronavírus mudou os planos. Conforme cessava o trabalho nas oficinas de costura, as famílias acompanhadas pela Associação viram sua renda minguar. Hoje, conta Lineth, alguns falam em retornar para seus países de origem – onde têm parentes e redes de apoio consolidadas. O desejo é maior, justamente, entre os imigrantes indocumentados, que não esperam ter acesso aos auxílios do governo brasileiros: “Mas muitos receiam fazer essa viagem de retorno e ficar presos na fronteira”, conta a psicóloga.  Para oferecer algum alento, a Associação arrecada donativos para as famílias mais necessitadas. Nas contas do grupo, mais de 200 famílias já foram beneficiadas. Uma mensagem nas redes sociais ensina como colaborar. São doados alimentos e artigos de higiene. Sobretudo, leite e fraldas: “Há famílias numerosas, com crianças pequenas, e que precisam desse apoio”, diz Lineth. No último domingo, a casa da psicóloga, na Vila Mariana, se convertera numa espécie de centro logístico, onde as doações chegavam e de onde eram despachadas: “Tentamos fazer isso com presteza e com segurança”, diz Lineth. “É um desafio, mas é necessário. As pessoas têm fome”.  *Camila é um nome fictício. A pessoa pediu para não ser identificada Foto de topo: entrada do Centro de Referência e Atendimento para imigrantes, em São Paulo (reprodução Google Street View)  

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Migrantes da indústria têxtil enfrentam impactos da Covid-19

com revisão de Guilherme Weimann Migrantes nas principais metrópoles da América Latina estão sujeitos a realizar atividades de trabalho precarizado. É o caso de milhares de migrantes inseridos na indústria têxtil em cidades como São Paulo e Buenos Aires, seja na informalidade ou mesmo em situação formal, que convivem com condições precárias de trabalho e moradia. O convívio em oficinas fechadas, por onde o ar circula mal, e as oscilações de renda - próprias de uma atividade em que as pessoas são pagas de acordo com o volume da produção - tornam essas populações especialmente vulneráveis aos impactos da pandemia do novo coronavírus. >>Isolados pela Covid-19, indígenas temem passar fome no Mato Grosso do Sul Para o antropólogo e professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), Alejandro Goldberg, os efeitos dessa pandemia podem ser catastróficos para esses grupos. “O impacto da pandemia sobre os conjuntos socioculturais mais pobres da sociedade, dentro dos quais se encontram as famílias migrantes, pode chegar a dimensões de uma envergadura enorme para suas vidas. Sobretudo para aquelas pessoas que se encontram em uma grave situação de precariedade de habitação ou trabalho”, afirma.  >>Escolas de São Paulo se organizam contra o trabalho infantil   No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o caráter de pandemia em relação ao novo coronavírus, o Sars-cov-2. O termo se refere ao momento em que é possível identificar transmissão sustentada de uma determinada doença - no caso, a Covid-19 -  em uma grande região geográfica, englobando um ou mais continentes. Apesar da declaração não ter mudado na prática as orientações da OMS, aumentou o alerta da opinião pública e de governos sobre a seriedade da situação. Três semanas após o anúncio, os efeitos da pandemia se concretizam no dia a dia: governos implementam políticas de isolamento social, quarentena, restrições de viagens e fechamento de fronteiras. Ao mesmo tempo, tentam contornar os efeitos da grave crise econômica e social que se avizinha. >>Moradores de favela criam gabinete de crise para combater coronavírus   Em uma cidade como São Paulo, populosa e extremamente desigual, o alastramento da Covid-19 também traz preocupações sérias para diversos setores sociais. Do ponto de vista epidemiológico, são mais vulneráveis os idosos e pessoas com doenças crônicas ou comorbidades, por serem mais suscetíveis ao agravamento de seu quadro clínico ao contrair a doença. Mas, há, ainda, determinantes sociais que colocam outras parcelas da população em situação de vulnerabilidade. São moradores de rua e de bairros periféricos, povos indígenas, pessoas em situação de privação de liberdade, pobres, migrantes e refugiados.  Na avaliação de Goldberg, há uma multiplicidade de fatores que, articuladamente, determinarão uma quebra nas trajetórias de vida das populações migrantes.  A Covid-19 possui grande potencial de contágio em locais fechados, principalmente os que se assumem como espaços de moradia e trabalho. Trata-se de uma situação semlhante a da tuberculose, doença que atinge com muita frequência trabalhadores de oficinas e outros grupos vulneráveis. De acordo com o antropólogo, isso se deve, especialmente, aos “ambientes de lotação, fechados e sem ventilação que caracterizam o espaço da oficina”, explica. Segundo Goldberg, os trabalhadores migrantes, moradores de oficinas, convivem em áreas onde respiram constantemente a poeira liberada pelos tecidos das máquinas de costura, com escassas medidas de proteção ou higiene. São nesses espaços que, para o antropólogo, “o Sars-Cov-2, que afeta principalmente o sistema respiratório [assim como a bactéria do Bacilo de Koch, que produz a doença da Tuberculose], circularia facilmente pelo ar e pelos objetos da oficina”. Impactos na renda Existe ainda a preocupação com os danos socioeconômicos a essas famílias. “O trabalho na oficina têxtil é peça por peça”, recorda Goldberg. Por isso, as pessoas costureiras cobram e recebem por peça acabada. Se o dono da oficina não recebe pedidos, nenhum trabalhador poderia ter renda, o que os deixa em dificuldades para arcarem com seus gastos cotidianos.  As preocupações trazidas por Goldberg vão de encontro com as medidas de combate ao coronavírus, anunciada pela Prefeitura de São Paulo no dia 17 de março. As políticas de isolamento social e o fechamento de serviços e comércios não essenciais, importantes paras a contenção do vírus na população geral, afetam diretamente a população migrante inserida na cadeia têxtil na capital paulista  Um desses casos é o de Maria, imigrante boliviana que preferiu não ser identificada nessa matéria. Trabalhadora da costura, Maria só percebeu a gravidade da situação quando começou a circular várias informações sobre o coronavírus pelas redes sociais. Mas a ficha realmente caiu quando a escola de seus filhos suspendeu as aulas e enviou recomendações de prevenção à doença. Neste cenário, o acesso à renda se torna nulo. “As pessoas que trabalham com costura estão  paradas, não sabemos quando vamos voltar à rotina de trabalho. Os fornecedores também pararam e, por isso, a situação está difícil para cada um de nós. As mulheres que têm filhos pequenos estão passando ainda mais dificuldades, porque não podem sair à rua, apenas para comprar alimentos ou em casos emergenciais”, relata Maria. Somado a esses fatos, Maria aponta a lentidão das instituições de saúde. “A verdade é que não nos informaram nada, somente nesta semana recebi alguma informação de como nos proteger. Mas, antes, a área de saúde não se preocupou com nada, já os políticos menos ainda. Estamos nas mãos de Deus. Só ele nos pode salvar, só ele nos pode proteger. Claro, nós temos que tomar os cuidados básicos para não pegar essa praga e estamos aí nessa luta, nesse desafio do mundo inteiro”, afirma. Mesmo nessa paisagem adversa, Maria mostra esperança de que o caminho certo é cuidar a saúde e se manter em quarentena. “É um grande aprendizado [manter-se isolada] para valorizar a nossos seres queridos, nossas amizades. E, o mais importante, aprender a cuidar da nossa saúde que muitas vezes esquecemos. O corpo é o principal para nos cuidar, porque se você está doente não pode ajudar a ninguém e não pode trabalhar. Muitos estamos aprendendo a nos cuidar na força. É o que eu estou fazendo, não estou saindo a nenhum lugar, estou numa luta, me cuidando e sempre com fé”, revela.   Atualmente, todos os 26 estados do país e o Distrito Federal têm assumido medidas de isolamento social como formas de conter e diminuir o avanço desta pandemia. Coletivos e ativistas imigrantes sabem disso e por isso lançaram a campanha #fiquememcasa. À medida que a crise se agrava, movimentos sociais e coletivos também se organizam no esforço de ajudar famílias imigrantes neste momento de extrema vulnerabilidade. Confira abaixo algumas das iniciativas. Você pode colaborar também com a arrecadação de fundos para a compra de cestas básicas para famílias que trabalham em oficinas de costura. O Instituto Alinha criou uma vaquinha online para receber contribuições.     

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Brasileira ensina improviso contra traumas da imigração

Não é raro que as oficinas ministradas pela paulistana Nadja Moraes terminem em choro. Os encontros duram dois dias inteiros e acontecem em Zurique, na Suíça, onde ela mora há mais de três anos. Lágrimas são corriqueiras: “Durante os workshops, muitas emoções vêm à tona”, explica Nadja, uma moça de 35 anos e cabelos negros encaracolados. O choro não surpreenderia não fosse por um detalhe: há mais de 17 anos, Nadja é palhaça. Em seus workshops tenta, através do riso e da improvisação, diminuir o desconforto — e amenizar os traumas — que imigrantes e refugiados enfrentam logo que chegam à Europa.  >> Como Nívea Sabino usa poesia para discutir direitos humanos No campo dos cuidados a imigrantes, algumas profissões são recorrentes. Há enfermeiros e psicólogos, capazes de tratar os impactos físicos e mentais de uma experiência potencialmente traumática, a migração. Há também especialistas em relações internacionais, advogados e assistentes  sociais. Nas últimas décadas, ganharam espaço profissionais que trabalham com arteterapia e que tentam, por meio de variadas formas de arte, ajudar imigrantes e refugiados a superar traumas e estreitar vínculos.  >> Com poesia, Florência busca visibilidade para imigrantes LGBTI+ Nessa frente, há instituições já veteranas, como a Clowns Without Borders (ou Palhaços sem Fronteiras). Criado em 1933 em Barcelona, na Espanha, o grupo atua em mais de 40 países, sobretudo naqueles hoje em conflito. Há também o grupo "Pallasos em Rebeldía" (Palhaços em Rebeldia), criado pelo artista espanhol Iván Prado, e que usa a arte para denunciar violações de direitos. >> O autocuidado tem função política, defende ativista Nadja segue estratégia parecida. Seus encontros colocam para interagir imigrantes de diferentes nacionalidades. São peruanos, mexicanos, alemães, somális e chineses. São também histórias de vida e de migração muito diversas: “Nas migrações, há dois mundos paralelos”, conta Nadja. “Há  os que migram com bons empregos e perspectivas favoráveis. E há os que estão na batalha por condições básicas de refazer suas vidas”.  >> Como educar crianças para respeitar a diversidade religiosa A esperança é de que , ensinadas a improvisar, essas pessoas experimentem com menos dor a vida em um país estrangeiro. O aprendizado foi importante para a própria Nadja: “Quando me tornei imigrante na Europa, eu me sentia completamente inadequada, como se não pertencesse a lugar nenhum”, conta. “Entendi que esse era o momento mais importante para eu ser palhaça. Porque o palhaço é o maior desajustado que existe”.  A chave, segundo ela, reside na resiliência do palhaço. Para fazer graça, o artista busca o erro: usa roupas largas, procura o absurdo. Tropeça e cai, de propósito — para logo depois levantar. “As quedas de um palhaço não são quedas”, diz Nadja. “São rodopios”. No palhaço, aquilo que é apontado como um erro — o andar claudicante, as roupas espalhafatosas — vira um trunfo. Para Nadja, algo parecido acontece entre imigrantes: “Quando nos tornamos imigrantes, parece que nos tornamos errados”, conta. “Não sei me comportar do jeito certo, falar do jeito certo. Isso, unido às dificuldades práticas do dia a dia, limita muito e desencoraja a integração" Parte do trabalho nas oficinas consiste na realização de exercícios não-verbais. Em silêncio, se comunicando apenas com as expressões e o corpo, os participantes tentam se soltar e construir vínculos. A estratégia busca transpor uma dificuldade comum entre imigrantes, que nem sempre falam a língua do país de destino: "Você se vê num mundo onde, de repente, é analfabeto de novo. E, com estes exercícios de improviso, a gente trabalha a presença, o olhar, e dessa forma acessamos a nossa vulnerabilidade” , explica. “É a partir da vulnerabilidade que a gente se conecta com o outro”. É assim, também, que Nadja se aproxima das pessoas que participam do workshop. No começo das atividades, às vezes acontece de parte do grupo demorar a se enturmar. Nadja viveu isso tempos atrás, numa atividade que envolveu um grupo de homens turcos: “Eles interagiam somente com homens. Quando cheguei para ministrar a atividade, me olharam de um jeito estranho. Havia uma questão de gênero forte”, conta. A saída foi usar o estranhamento a seu favor. Nadja dividiu a turma em duplas, que deviam se encarar sem dizer palavra. Parte das duplas era formada por um homem e uma mulher. “É um exercício que traz muitas emoções à tona”, conta. “Muitos relaxaram neste momento, se abraçaram e, a partir deste exercício, passaram a conversar mais. Inclusive com as mulheres,de forma mais harmônica e respeitosa”. Foi uma saída pensada de improviso, e que funcionou: “Nós, que utilizamos exercícios de improviso, nunca estamos despreparados para o desconhecido”, define.   Foto: A brasileira Nadja Moraes (arquivo pessoal)

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Marcha dos Imigrantes leva solidariedade a países em conflito

Alex Vargem – CAMI Cerca de 4 mil pessoas de diversos países da América Latina, Ásia, África e Europa se reuniram no último domingo, 1º, na Avenida Paulista, durante a 13ª Marcha dos Imigrantes e Refugiados. Realizada anualmente, a marcha tem por objetivo sensibilizar a sociedade e o poder público para a pauta migratória. Em 2019, o evento teve por tema "Livres com direitos em qualquer lugar do mundo", e foi fruto de um processo de construção de 4 meses junto de diversas organizações e coletivos de imigrantes e refugiados. Uma segunda faixa trazia os dizeres "Paz no Mundo: solidariedade aos países que estão em conflito", dado o momento político conturbado em diversas regiões, entre as quais na América do Sul, que recentemente resultaram em conflitos internos. A manifestação também fez referência a conflitos mais antigos, como a guerra civil da Síria e conflitos na África. >>IMIGRANTES E REFUGIADOS ORGANIZAM MARCHA CONTRA A XENOFOBIA   A empolgação dos participantes deu a tônica do evento. No início, os grupos perfilavam e se alinhavam em blocos na avenida. Um grupo de imigrantes do Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS), instituição que participou do processo de construção da marcha, trouxe  faixas e bandeiras de seus países e se juntou aos grupos de imigrantes bolivianos, haitianos de Guarulhos e da zona leste de São Paulo;  à Frente das Mulheres Imigrantes,ao Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano Contra o Golpe,  à  Associação Salvador Allende, assim como ao Coletivo Lastesis — composto por mulheres chilenas que, horas antes, protestaram em frente ao consulado do Chile na Avenida Paulista. >>COM POESIA, FLORÊNCIA BUSCA VISIBILIDADE PARA IMIGRANTES LGBT+ Também compareceram as mulheres filipinas, Lakitas, África do Coração, e o coletivo Diásporas Africanas. No total, participaram em torno de 40 nacionalidades, entre as quais congoleses, bolivianos, chilenos, haitianos, peruanos, africanos do Malí e África do Sul, angolanos, togoleses, quenianos, senegaleses, venezuelanos, paraguaios, colombianos, argentinos, pessoas oriundas de países como Estados Unidos, Itália e refugiados africanos da Serra Leoa. Esses últimos exibiam o cartaz "Nós existimos aqui em São Paulo". Compareceu, também, o grupo africano dos povos originários de Biafra (território localizado na Nigéria) e um grupo grande de refugiados da Guiné “Conacri”, que se destacava com as camisetas vermelhas. >>FESTA BOLIVIANA REVELA SINCRETISMO RELIGIOSO E CRÍTICAS À MINERAÇÃO No decorrer da marcha, muitos fizeram intervenções no microfone que era aberto. No geral, denunciaram as violações que ocorrem nos países de origem, como no caso da performance crítica das mulheres chilenas, denunciando a triste situação da violação de direitos humanos no Chile. Um dos participantes da Guiné Conacri, conhecido como Alfa, aproveitou o espaço para falar do caos institucional no país: “Lá, o presidente vai para o 3º mandato, não respeita a Constituição para troca de cargo", contou. Já a boliviana Verônica Yujra do coletivo Sí Yo Puedo e do Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano Contra o Golpe, criticou a deposição do presidente Evo Morales e a perseguição a seus aliados:  "Estamos aqui por conta de toda esta situação triste que acontece na Bolívia", relatou em microfone aberto. O ato contou também com a presença do vereador Eduardo Suplicy, que cantou no microfone e prestou solidariedade aos diversos grupos e nacionalidades presentes na Marcha. Outros grupos se manifestaram, destaca-se os africanos de Biafra, com suas músicas e cantos de liberdade, denunciaram as diversas situações resultantes em milhares de mortes que ocorrem em seu território e reivindicam a separação da Nigéria. Outros preferiram denunciar violações sofridas no Brasil: "Queremos o fim do racismo e da xenofobia no Brasil", destacou Prudence Kalambay da República Democrática do Congo. Neste mesmo sentido, os haitianos relataram a questão do fortalecimento das políticas públicas no país para que haja uma maior integração: "Haiti foi o primeiro país das Américas a se rebelar contra à escravidão, somos fortes", destaca o haitiano Williem , residente em Guarulhos. O ato contou também com a performance da Florência Transformista, interpretado pelo artista boliviano Remberto, que aborda a questão dos imigrantes LGBT+. Se apresentaram a cantora Celina, de El Salvador, o cantor Mario Ayala da Bolívia e a sul-africana Nduduzo Siba. Ao final, todas as nacionalidades fizeram uma ciranda, com uma música árabe interpretada pelo refugiado sírio Abdulbaset Jarour, que dizia minutos antes no microfone: "Vamos nos unir, todos os povos, todas as nacionalidades, juntos somos mais fortes, migrar é um direito. Queremos a paz!".  

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Imigrantes e refugiados organizam marcha contra a xenofobia

por Alex Vargem, do Cami Todos os anos, desde 2007, São Paulo sedia a Marcha dos Imigrantes e Refugiados no Brasil. É um momento rico de confraternização, e de reivindicação, quando se encontram os muitos povos das distintas culturas que vivem no país.  Ao longo destes 12 anos, a marcha se consolidou como um espaço de participação das diversas nacionalidades que residem na cidade. Ela surgiu como forma de marcar o Dia Internacional dos Imigrantes, estabelecido pela ONU em 18 de dezembro de 1990. Naquela data, foi ratificada a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e Membros de suas Famílias.  >>Com poesia, Florência busca visibilidade para migrantes LGBTI+ Diversos grupos folclóricos, organizações não-governamentais, associações e coletivos colaboram com a construção deste evento no Brasil que, nas duas últimas edições reuniu mais de 4 mil pessoas.  A marcha de 2019 está marcada para a acontecer no dia 01 de dezembro, na Avenida Paulista, sob o lema“Livres com direitos em qualquer lugar do Mundo”. Essa edição tem especial importância. No mundo inteiro, governos locais endurecem suas políticas migratórias e ganham força os setores conservadores contrários à migração.  >>Festa boliviana revela sincretismo religioso e críticas à mineração Ao mesmo tempo, crises internas em diversos países produzem novos fluxos migratórios. Neste ano de 2019, milhões de pessoas migraram para outros países para escapar de dificuldades financeiras, de crises ambientais, da fome, do preconceito, da guerra, conflitos civis ou de variadas formas de perseguição. Estas pessoas esperam construir seus sonhos em outros lugares, e ter acesso às políticas públicas que melhorem suas condições de vida. >>Glossário: o que é tráfico de pessoas É necessário que a sociedade se posicione frente às dificuldades que governos tentam impor à livre circulação de pessoas. A 13ª Marcha dos Imigrantes e Refugiados no Brasil tem por objetivo sensibilizar os brasileiros para a temática migratória, dar visibilidade às reivindicações das diversas nacionalidades que vivem no país, e valorizar seu protagonismo dos imigrantes na busca por mudanças no cenário atual, e na defesa dos direitos de todas e todos.    A marcha acontecerá no domingo, dia 01 de dezembro às 14h em frente ao Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista. Bandeiras de Luta 1. Pelo protagonismo e garantia de direitos para os imigrantes e refugiados no mundo 2. Contra cultura do ódio, discriminação e xenofobia 3. Pela revogação da portaria 770 do Ministério da Justiça, pelo fim das deportações e repatriações 4. Pelo direito de ampla defesa nas medidas de expulsão e extradição; 5. Pelo fim do trabalho escravo 6. Pelo direito de votar e ser votado 7. Pela anistia ampla e irrestrita a todos os indocumentados 8. Por um ensino que respeite à diversidade cultural e reconhecimento e validação dos diplomas, 9. Pela implementação de políticas públicas para imigrantes e refugiados. 10. Por um atendimento mais humanizado nos serviços públicos: educação, saúde, assistência social e moradia de qualidade, acesso à justiça; 11. Pela capacitação e sensibilização dos agentes e órgãos públicos 12. Contra as multas e taxas abusivas para se regularizar. 13. Respeito à participação popular na regulamentação da lei migração, mais democrática. 14. Pela implementação às políticas públicas que facilitem o acesso ao microcrédito 15. Por cidadania universal Foto: Quase 4 mil pessoas participaram da 12ªedição da Marcha em 2018 (FOTO: CAMI)

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Imigrantes e refugiados organizam marcha contra a xenofobia

por Alex Vargem, do Cami Todos os anos, desde 2007, São Paulo sedia a Marcha dos Imigrantes e Refugiados no Brasil. É um momento rico de confraternização, e de reivindicação, quando se encontram os muitos povos das distintas culturas que vivem no país.  Ao longo destes 12 anos, a marcha se consolidou como um espaço de participação das diversas nacionalidades que residem na cidade. Ela surgiu como forma de marcar o Dia Internacional dos Imigrantes, estabelecido pela ONU em 18 de dezembro de 1990. Naquela data, foi ratificada a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e Membros de suas Famílias.  >>Com poesia, Florência busca visibilidade para migrantes LGBTI+ Diversos grupos folclóricos, organizações não-governamentais, associações e coletivos colaboram com a construção deste evento no Brasil que, nas duas últimas edições reuniu mais de 4 mil pessoas.  A marcha de 2019 está marcada para a acontecer no dia 01 de dezembro, na Avenida Paulista, sob o lema“Livres com direitos em qualquer lugar do Mundo”. Essa edição tem especial importância. No mundo inteiro, governos locais endurecem suas políticas migratórias e ganham força os setores conservadores contrários à migração.  >>Festa boliviana revela sincretismo religioso e críticas à mineração Ao mesmo tempo, crises internas em diversos países produzem novos fluxos migratórios. Neste ano de 2019, milhões de pessoas migraram para outros países para escapar de dificuldades financeiras, de crises ambientais, da fome, do preconceito, da guerra, conflitos civis ou de variadas formas de perseguição. Estas pessoas esperam construir seus sonhos em outros lugares, e ter acesso às políticas públicas que melhorem suas condições de vida. >>Glossário: o que é tráfico de pessoas É necessário que a sociedade se posicione frente às dificuldades que governos tentam impor à livre circulação de pessoas. A 13ª Marcha dos Imigrantes e Refugiados no Brasil tem por objetivo sensibilizar os brasileiros para a temática migratória, dar visibilidade às reivindicações das diversas nacionalidades que vivem no país, e valorizar seu protagonismo dos imigrantes na busca por mudanças no cenário atual, e na defesa dos direitos de todas e todos.    A marcha acontecerá no domingo, dia 01 de dezembro às 14h em frente ao Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista. Bandeiras de Luta 1. Pelo protagonismo e garantia de direitos para os imigrantes e refugiados no mundo 2. Contra cultura do ódio, discriminação e xenofobia 3. Pela revogação da portaria 770 do Ministério da Justiça, pelo fim das deportações e repatriações 4. Pelo direito de ampla defesa nas medidas de expulsão e extradição; 5. Pelo fim do trabalho escravo 6. Pelo direito de votar e ser votado 7. Pela anistia ampla e irrestrita a todos os indocumentados 8. Por um ensino que respeite à diversidade cultural e reconhecimento e validação dos diplomas, 9. Pela implementação de políticas públicas para imigrantes e refugiados. 10. Por um atendimento mais humanizado nos serviços públicos: educação, saúde, assistência social e moradia de qualidade, acesso à justiça; 11. Pela capacitação e sensibilização dos agentes e órgãos públicos 12. Contra as multas e taxas abusivas para se regularizar. 13. Respeito à participação popular na regulamentação da lei migração, mais democrática. 14. Pela implementação às políticas públicas que facilitem o acesso ao microcrédito 15. Por cidadania universal Foto: Quase 4 mil pessoas participaram da 12ªedição da Marcha em 2018 (FOTO: CAMI)

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Com poesia, Florência busca visibilidade para imigrantes LGBT+

Por Alex Vargem, do CAMI Fazia uma tarde de domingo gelada em São Paulo quando Remberto Suárez Roca subiu ao palco instalado na praça Kantuta, no centro da capital. Vinha caracterizado: tranças longas coloridas no cabelo, vestido rodado e chapéu coco, como uma perfeita chola boliviana. Naquela tarde, o tímido Remberto cedia lugar a Florência Transformista, uma drag queen imigrante e debochada, ativista dos direitos LGBT+: “Basta de explorar me!”, declamou, séria, para surpresa da plateia.  O ano era 2018 e Florência era uma dos mais de 20 artistas que se apresentariam durante o VII Festival de Música e Poesia do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI).  Anualmente, o evento reúne cerca de 700 pessoas de diversas nacionalidades na praça Kantuta, um tradicional ponto de encontro das comunidades de imigrantes latino-americanos que moram em São Paulo.  >>Festa boliviana revela sincretismo religioso e críticas à mineração Bolivianos, chilenos, peruanos, cubanos, haitianos, e africanos de diversos países — sobretudo, de Angola, Burkina Faso,Guiné, Guiné-Bissau, Moçambique, Nigéria,Quênia, República Democrática do Congo, Senegal e Serra Leoa — participam do festival, que dura uma tarde inteira e se estende pelo começo da noite.   Em 2019, a VIII edição do festival está marcada para o próximo domingo, dia 1, a partir das 13h. Será feita com orçamento mais modesto que o normal, e com menos apoio da prefeitura da capital. É possível que, neste ano, falte um palco de fato ao evento. Em contrapartida, há expectativa de que imigrantes de um maior número de nacionalidades se apresentem. >>Glossário - O que é racismo estrutural Em tom de festa, os participantes apresentam músicas e poesias. Muitas são composições próprias. Embora não seja regra, a maioria vem carregada de forte conteúdo político. Era o caso do poema declamado por Florência: “Basta de humilharme! De discriminarme! Reclame! Donde están mis documentos? Porque no me aceptan? Porque no me respetan?”, continuou Florência. As frases, duras, contrastavam com os trajes alegres da drag queen. Os cinco membros do júri ficaram  encantados. Naquele tarde, Florência levou o primeiro lugar na categoria poesia.  Remberto Suárez Roca  tem 32 anos de idade e cinco anos de Brasil. Alegre e tímido, migrou de sua Bolívia natal em busca de melhores condições de vida em terra estrangeira. No Brasil, trabalhou como costureiro de perucas e cuidador de idosos. Hoje, faz um curso técnico de enfermagem. Florência Transformista, seu alter ego debochado e festivo, surgiu em meio às apresentações que Remberto fazia em saraus, teatros e escolas, como artista performático. Usando trajes tradicionais e maquiagem pesada, a drag recorre à poesia para tratar de temas caros à comunidade LGBT+: “Como artista e transformista, quero dar um grito de  diversidade”, sentencia em um dos poemas. O figurino, vez ou outra, é coroado por uma lhama de pelúcia, encarapitada no ombro direito do artista. Os textos, de sua composição, são sempre escritos em espanhol.  >>"Guia para comunicadores" traz dicas para falar sobre direitos humanos Entre as comunidades de imigrantes que vivem em São Paulo, as discussões sobre direitos LGBT+ são vistas como um tema ainda sensível. Parte dos ativistas  que chegam ao Brasil sofriam algum nível de perseguição em seus países de origem, devido a sua sexualidade ou identidade de gênero. Entre alguns, persiste o temor de, já no Brasil, sofrer com o ostracismo provocado pelo preconceito.  Mas essa é uma discussão que avançou nos últimos anos. Criaram-se grupos de mulheres que discutem femininismo e visibilidade lésbica. Entre os bolivianos que residem em São Paulo, Remberto é um dos poucos a se posicionar abertamente em favor dos direitos da população LGBT+. Nos eventos de que participa, Florência é sempre recebida com alegria. Florência deve se apresentar novamente no festival de 2019. Mas faz mistério sobre a poesia escolhida — é de bom tom que os jurados não conheçam o texto até o momento da apresentação.  

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