Migrações

Boliviano se isola por 4 meses em hospital para cuidar de paciente brasileiro

Sociólogo e pesquisador sobre migrações e refúgio   Quando o governo de São Paulo decretou quarentena pelo novo coronavírus em todo o estado, no dia 22 de março, lojas de artigos não essenciais fecharam as portas, parques foram esvaziados, e o trabalho feito em escritórios migrou para um esquema de home office. Num momento em que as pessoas se isolavam em casa, o boliviano Remberto Suarez Roca decidiu que deveria sair da dele. >> Sem conseguir apoio emergencial, imigrantes criam redes de apoio mútuo    Remberto tem 33 anos, 6 deles vividos no Brasil. Na comunidade boliviana de São Paulo, é conhecido por encarnar a drag queen Florência Transformista — uma personagem animada que, por meio do humor e da poesia, discute temas caros à comunidade LGBTI+ migrante que vive na cidade e na região metropolitana. Em 2018, Florência foi premiada no 7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes, organizado pelo Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), com uma poesia que mencionava a luta pela igualdade e a reverência a Pachamama (Mãe Terra em Quechua – língua dos povos originários presentes nos Andes).   Para além dos eventos relacionados à temática de direito humanos, Remberto já atuava como cuidador de idosos. No final de março, foi contratado para cuidar de um paciente que utiliza cadeira de rodas e está em reabilitação no Hospital Premier, localizado na zona Sul de São Paulo. Dois dias depois da contratação, foi decretada a quarentena. Desde então, os diversos profissionais que atuam no hospital — médicos, enfermeiros, cuidadores, funcionários da limpeza, cozinheiros, ente outros —  estabeleceram um pacto voluntário de não sair para a rua e nem sequer retornar para suas respectivas casas.  O objetivo é reduzir os riscos de contaminação e propagação da Covid-19 no interior do hospital, considerando que os pacientes são de alto risco: muitos são idosos que necessitam de cuidados paliativos. >>Imigrantes e os labirintos da economia informal no Brasil   Remberto aderiu ao pacto já de saída. Na quarta-feira, 22, vai completar 4 meses longe de casa.  “Precisamos nos reinventar e nos conhecer melhor por conta desta pandemia do novo coronavírus. É um momento apocalíptico que ninguém esperava”, destaca ele.  “Foi necessário eu estar aqui para cuidar do meu paciente, não vou deixá-lo. Ele está em processo de reabilitação pois teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Junto de mim, outros profissionais dão o máximo para cuidar de todas e todos, muitos são idosos e necessitam de uma atenção especial e redobrada”, destaca. >> Imigrantes africanos e haitianos criam iniciativas para enfrentar a Covid-19   No universo de mais de 200 pessoas que hoje vivem no hospital, Remberto é o único imigrante. “Todos temos interagido bem neste momento em que a solidariedade é importante. Agora somos todos uma família, ficamos juntos 24 horas. Temos um quarto que divido com os colegas. Não conheço muito a região, ou melhor, não conheço nada. Lembro que no 1º dia de trabalho no mês de março, desci do trem, caminhei pela Avenida Berrini até aqui e não saí mais. Me falaram que tem um shopping aqui perto, é verdade?”, indaga.   Oriundo de Trinidad, capital do departamento de Beni, a 500 km da cidade de Santa Cruz de la Sierra, ele mantém contato por whatsapp com seus familiares que estão na Europa. “A saudade é forte, mas tenho uma missão a cumprir”, relata.   Num sábado recente, no começo de julho, a agente social do CAMI, a boliviana Grécia Delgado — que atua no trabalho de base da instituição — visitou Remberto. Para evitar o contato físico, os pacientes e profissionais que lá atuam ficam numa pequena área externa separados por um grande vidro, que os isolam do contato físico do mundo exterior. É a “Janela dos Encontros – o que o cuidado une, barreira nenhuma separa”.  Diante dela, os visitantes estabelecem vínculos de afeto com pacientes e profissionais, ainda que separados pelo vidro. “A direção do Hospital criou este protocolo para evitar o contágio. Neste período, não tivemos nenhum caso de coronavírus entre nós, profissionais e pacientes”, ressalta Remberto. “Fomos destaques até numa matéria do New York Times”, relata entusiasmado.   Mantimentos, roupas e outros materiais hospitalares que chegam, cumprem as medidas sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS). Além de serem higienizados, ficam em uma área protegida por alguns dias até o vírus deixar de sobreviver na superfície (no caso de estarem contaminados). Só após estas medidas cautelosas é que são colocados de fato dentro do hospital.   Alguns profissionais de saúde, pacientes e cuidadores, passavam nos corredores ao fundo do vidro enquanto Remberto e Grécia conversavam. Um deles, um médico (conhecido do entrevistado), tocava uma música erudita no piano instalado na recepção, como forma de entreter os confinados. Remberto comentou diversas situações ocorridas durante o seu confinamento voluntário e refletiu sobre a comunidade migrante na cidade de São Paulo e seu personagem: “Florência está parada, não posso atuar no momento. Muitos que eram artistas agora terão que fazer outras coisas para sobreviver. São Paulo é um leque de oportunidades para todos os imigrantes, é importante sempre fazer cursos e se atualizar para enfrentar os novos desafios”.   Pela TV do hospital e pela internet, Remberto acompanha os reflexos da pandemia sobre a vida das comunidades de imigrantes e refugiados que vivem em São Paulo. Lhe preocupa, especialmente, os casos de violência e xenofobia ocorridos nos últimos meses: “Tudo isto é um momento de muita reflexão. Acompanho o que acontece com a comunidade boliviana pela TV do Hospital. Inclusive, assisti num noticiário, casos de violência acontecidos no bairro do Brás, no qual um boliviano ficou ferido. Me preocupo com a minha comunidade, agora na pandemia, por conta da questão econômica e de saúde, todos devemos no unir, bolivianos, os demais latino-americanos, africanos, haitianos, todos, sem exceção.Serão tempos difíceis para os imigrantes e refugiados”, comenta.   Entre as grandes dificuldades enfrentadas nestes 120 dias de clausura, Remberto lamenta ter perdido amigas e amigos queridos por conta da Covid-19 e não poder prestar as últimas homenagens.  Entre as amigas que se foram, a ativista brasileira transexual Amanda Marfree, de 35 anos, que atuou como agente de prevenção no Programa Municipal de enfrentamento à DST/AIDS e era orientadora sócio educacional no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD). “Lamento muito a morte da minha amiga por conta do coronavírus. Era uma grande pessoa. Foi graças a ela que eu fiz um curso direcionado para a população trans. Ela me ajudou muito. Foi uma grande referência”, relata emocionado.   Ele também lamenta a morte de Bruna Varin, ativista transexual que atuava na ONG Pela Vida, que faleceu há poucas semanas por conta de um câncer. “Me avisaram pelo whatsapp. Ela foi internada num sábado e na terça-feira daquela semana faleceu. Foi tudo muito rápido. Fiquei arrasado”.   Entre os maiores desejos de Remberto ao sair do confinamento, é o de comer outras iguarias para além daquelas servidas diariamente no Hospital. Ele sente saudades do pão com ovo frito, de tomar chá de coca e de saborear comidas típicas da Bolívia como o Pollo Broaster (Frango Frito), Majadito boliviano (prato que leva carne, arroz, ovos, mandioca e banana) e a Sopa de Mani (Sopa de Amendoim). “Vocês brasileiros não tem muito costume de tomar sopa. Nós temos esta prática na Bolívia e o nosso prato é enorme”, brinca o boliviano.   Ainda sem previsão para o fim do confinamento voluntário, e sem uma vacina contra o coronavírus que possa minimizar a situação da pandemia no mundo, Remberto Suarez Roca tem a certeza de que ficará em isolamento pelo tempo necessário para cuidar do seu paciente e fornecer o apoio aos demais membros do Hospital. “Ficarei aqui na quarentena e darei o suporte necessário ao meu paciente e aos demais brasileiros. Temos que estar preparados para o futuro. Não podemos desanimar. Tudo isso passará e vamos todos nos reinventar. Temos que cuidar da nossa saúde e em breve retornamos. Florência estará firme e forte para levar alegria à todas e todos”, despede-se, fazendo um aceno por trás da Janela dos Encontros. Com passos ligeiros, Remberto volta rapidamente ao interior do complexo hospitalar, para retomar sua rotina de cuidados.  

Terra

Como um lixão a céu aberto ameaça a saúde de quilombolas no Pará

por Maria Páscoa Sarmento, Liderança Quilombola de Salvaterra, Mestra em Planejamento do Desenvolvimento (NAEA/UFPA), Doutoranda em Antropologia (PPGA/UFPA) Há mais de 20 anos o lixão a céu aberto do município de Salvaterra encontra-se localizado em um terreno na estrada municipal Ramal Bacabal, mais ou menos, a 3 km da sede municipal. Lá são depositados todos os dejetos e rejeitos produzidos pelos habitantes da cidade de Salvaterra, desde lixo doméstico, pneus, embalagens de venenos, restos de animais mortos (domésticos e carcaças oriundas dos açougues), vegetação dos quintais, vidros, metais, móveis e eletroeletrônicos danificados, até o lixo hospitalar, conformando um amontoado gerador de mal cheiros, chorumes, contaminações e indignidades, que invadem a referida estrada e atingem quem transita por ela a qualquer época do ano. Diariamente, caminhões e carroças recolhem o lixo urbano e fazem o percurso até o lixão, isto quando chegam até lá, pois alguns costumam deixar suas cargas ao longo do caminho, a menos de 200 metros da Unidade Básica de Saúde Municipal Lauro Sousa, na saída/entrada da cidade para quem transita por este ramal, aproveitando-se do fato de não haver vigilantes ou fiscais da Prefeitura em atuação naquele local. No lixão, mais de 20 catadores, dezenas de cães, centenas de urubus, ratos, baratas, gaviões, garças, raposas e outros animais disputam tudo aquilo que ainda pode ser reaproveitado. No entorno do terreno do lixão existem pessoas habitando em sítios e cultivando roças, hortas e plantações de quintais, bem como criando animais domésticos e que usam água de poços para dessedentação e irrigação das culturas. Porém, estudos efetivados pela UEPA Campus de Salvaterra alertam que o lençol freático encontra-se extremamente contaminado, sendo desaconselhado o uso desta água para consumo humano. Outra questão que se põe é o fato de diversos igarapés intermitentes, entre os quais o de Passagem Grande e o do Retorna, possuírem nascentes em áreas muito próximas ao local, como pode ser observado no período do inverno amazônico, contaminando assim estes e outros mananciais. No município de Salvaterra existem 17 quilombos autorreconhecidos, agregando em torno de 7.000 pessoas, isto é, representamos 22% da população municipal. Historicamente nosso grupo humano sofre as consequências e mazelas do racismo que estrutura as relações sociais no Brasil, como entende Silvio Almeida e, em particular na Ilha do Marajó, onde lutamos há mais de 20 anos pelo direito a titulação de nossos territórios de pertença, tal como assegurado no Artigo 68 dos ADCT da Constituição Federal de 1988, bem como batalhamos para assegurar outros direitos sociais e políticos, como, por exemplo, o cumprimento da Convenção 169 da OIT e pela efetivação da educação escolar quilombola no município. E, para piorar, há um lixão no meio do nosso caminho.   Desafortunadamente, este dito ramal é a estrada oficial que interliga a sede municipal e dá acesso aos quilombos Bacabal, Santa Luzia, São Benedito, Pau Furado e Barro Alto. Juntos, congregamos mais de 400 famílias e em torno de 1.500 pessoas vivendo nestes povoados. Diariamente, ao longo dos últimos anos, nós, moradores destas localidades, que precisamos ir até a cidade, somos obrigados/as a trafegar em meio a toda a sorte de lixo, expondo-nos aos perigos e ao incômodo que isso representa, em especial na época do inverno amazônico, quando tudo alaga e a estrada é tomada por dejetos e pelo chorume. Nascida e crescida em um destes quilombos - Barro Alto - relembro as inúmeras vezes que percorri a estrada de piçarra a pé, de carroça, bicicleta, seja na lama ou na poeira, ao longo de minha infância e adolescência e nas idas e vindas entre o quilombo e a cidade de Salvaterra antes da instalação do lixão, assim como parentes e vizinhos faziam e ainda o fazem cotidianamente. Para mim, é uma estrada de longas datas e vários caminhos. Já me levou longe, mas sempre me traz de volta para cá. Acredito que, assim como para mim, é uma estrada que percorre e transporta planos, sonhos, esperanças, amores, ilusões, desilusões e perdas de muita gente que mora ou já morou por estas bandas. Por ela transitam estudantes, professores, agricultores, vaqueiros, pescadores, coletores, lavradores com seus produtos e fazeres. Nossos velhos e velhas contam que a estrada foi "aberta" com a chegada da Fazenda Paraíso do Ministério da Agricultura nos anos 50 para transporte de máquinas agrícolas e materiais para o empreendimento, e somente passou a ser mais usada pelo pessoal daqui a partir da década de 70, pois dantes preferiam os "atalhos", os "caminhos velhos" como a Estrada do Clarindo e os rios para chegar aos outros povoados e às cidades de Soure e Salvaterra, em especial após esta tornar-se sede municipal. A medida que a cidade foi crescendo, ao longo dos anos 90, o lixo doméstico precisou ser recolhido e retirado da área urbana, tarefa a cargo da gestão municipal, que muito oportunamente dispunha de um terreno no Ramal Bacabal e lá instalou o lixão municipal. A princípio localizado a uns 100 metros longe da estrada, com o aumento dos dejetos urbanos, foi crescendo, chegando ao tamanho atual, alcançando "a beira da estrada" e, desde uns quatro anos passados, todo um trecho da referida via. A cada ano que passou daquele tempo para cá, nós, de Bacabal, Barro Alto, Pau Furado, Santa Luzia e São Benedito, acompanhamos apreensivos a expansão do lixão. Primeiro o fedor alcançou nossas narinas; depois o chorume encharcou nossos pés e pernas, e vieram as "coceiras brabas", "os mijacões", "as frieiras da lama do lixão"; em seguida violentaram nossos olhares os ossos e as tripas do gado e das galinhas, as carcaças dos cães sacrificados por conta do calazar, o plástico voando na brisa e enfeando as árvores, as latas, o vidro quebrado, o papel higiênico usado, a seringa/agulha de injeção e os inúmeros urubus sobrevoando o caminho. Hoje, nos alcançou a indignidade e a indignação ao sermos obrigados a transitar em meio ao lixão por quase 3 quilômetros, posto que agora este se expande desde a saída da cidade e toma as margens e o centro de nossa estrada, levado pelas enxurradas, por mãos e pés humanos e pelas bocas, garras e bicos de animais que vivem do lixo, como testemunhamos mais uma vez na semana passada. Até agora, após diversas administrações municipais, ninguém tomou providências quanto a situação do lixão de Salvaterra, que segue crescendo desordenadamente, sem cercas, sem fiscalização, sem nenhuma normativa sobre o seu funcionamento. A cada ano, entre uma reclamação e outra dos transeuntes, o gestor municipal improvisa um arremedo de fiscalização e enjambra uma "organização" dos serviços de coleta e descarte de lixo. Ação prontamente esquecida no mês seguinte e retomada na próxima reclamação. No cerne desta questão encontra-se uma das facetas do racismo estrutural da sociedade nacional, o chamado racismo ambiental, configurando-se na prática e na forma da localização do lixão em nossa estrada, em nosso caminho diário, no caminho de nossas casas. Lixão que causa constrangimento quando temos que atravessá-lo com familiares, amigos e visitantes rumo aos nossos territórios. Fato que produz e reproduz humilhações. Que nos expõe diuturnamente aos perigos da contaminação química e biológica ao sermos obrigados a transitar em meio ao lixo contaminado. Configura-se como racismo ambiental a prática de expor deliberadamente e recorrentemente uma população racializada e/ou grupo étnico sociologicamente minoritário aos perigos e riscos representados por agentes químicos ou biológicos capazes de causar danos à saúde física, bem como à saúde psicológica, causando-lhe constrangimento, humilhação e diminuição de sua auto estima. É como é humilhante trafegar em meio ao lixo... ser tratado/a como lixo, sem importância....descartáveis... não-humanos(as). Neste sentido é necessário enfatizar que nunca fomos consultados e ouvidos seriamente pela gestão municipal quanto a localização do lixão no ramal de acesso aos nossos quilombos. Quase sempre a resposta às nossas recorrentes reclamações vem em forma de ações paliativas, como o uso de tratores para empurrar o lixo para fora da estrada e, no verão, tocar fogo na lixarada. Na prática, o que fazem é seguir negando-nos a dignidade humana. No episódio mais recente de "extrapolação do lixão", no sábado, 09/05/2020, em meio a pandemia da COVID 19, algumas lideranças obrigaram-se a deixar os territorios, na segunda-feira, e ir até a cidade fazer reclamações, denunciar e exigir a retirada do lixo que mais uma vez tomava toda a estrada e dificultava o trânsito, como mostram as imagens. Outra vez alguma providência mínima foi tomada pelo governante atual, colocando agentes de fiscalização e vigilante no entorno do lixão, entretanto estamos certos/as que será novamente uma medida paliativa, temporária e ineficaz. Neste episódio é interessante ressaltar que quando um grupo de lideranças quilombolas dirigiu-se à Secretaria Municipal de Saúde de Salvaterra para denunciar e exigir providências quanto ao problema, um agente municipal informou que estavam cientes da situação do lixão e, inclusive, estiveram tentando incinerar o lixo hospitalar na Vila de Jubim, mas enfrentaram a resistência da comunidade e tiveram que retornar a incinerar o lixo do hospital municipal, que infelizmente tem 2 pacientes internados com a COVID 19, no lixão do Ramal Bacabal, na estrada dos quilombos, no caminho dos/das quilombolas. Percebemos isto como uma ação institucional discriminatória, ou ainda, discriminação indireta que tem por fundamento o racismo, como entende o professor Silvio Almeida. Como se vê e como bem dizem nossos pretas e pretas: o 13 de maio não nos libertou!. Aqui, sentimos isso diariamente. Aparentemente, na ótica dos gestores municipais, ao contrário das pessoas de Jubim, nós podemos ficar à mercê do lixo contaminado. Nós podemos adoecer e mesmo morrer. Somos as vidas matáveis a quem Achille Mbembe se refere ao pensar a categoria necropolítica - uma política de morte que vem sendo adotada pela gestão municipal e que nos atinge diretamente. Uma política genocida que desconsidera a nossa condição humana, que, deliberadamente, parece querer garantir as nossas mortes, seja a morte física, seja a morte de nossa dignidade, seja a morte de nossa cidadania. Mas não estamos conformados com esta situação, portanto, mais uma vez, como Zumbis e Dandaras, nos insurgimos. Através da Associação Malungu, protocolou-se um pedido de providências em relação ao lixão de Salvaterra junto ao Ministério Público do Estado do Pará e seguimos aguardando as deliberações judiciais. Queremos que retirem o lixão do meio do nosso caminho. Aqui, desde a Ilha do Marajó, Somos e Seremos Resistência. Viva Dandara! Viva Zumbi! #QuilomboResiste. #MalungueirosdoMarajó Publicado orginalmente pelo Instituto Cartografando Saberes    

Crianças e adolescentes

Viva para dar orgulho ao seu filho, diz mãe de Ágatha à mãe de João Pedro

Vanessa Sales, em depoimento a Rafael Ciscati “Eu estava no trabalho quando soube do desaparecimento de João Pedro*. Àquela altura, as informações eram vagas. Amigos me enviavam mensagens de WhatsApp contando que um menino fora baleado e levado de casa pela polícia. ‘Meu Deus, esse menino está morto', pensei no mesmo instante. A notícia fez passar um filme pela minha cabeça.  Pensei na angústia vivida pela mãe de João Pedro — que, até aquele momento, não sabia nem sequer o paradeiro do filho. A dor dessa incerteza, a dor de não saber quando será possível velar um filho morto, é dilacerante. E é uma dor que eu conheço. >> A necropolítica, Ágatha e o direito a vida Em setembro de 2019, minha filha, Ágatha Félix, foi morta quando um policial militar disparou contra a Kombi que a transportava. Tudo aconteceu de maneira muito rápida e confusa. Ouvi Ágatha gritar, ouvi o barulho alto do tiro. Na hora, soube que o destino de minha filha não poderia ser bom. Soube que ela morreria — ou que, na melhor das hipóteses, levaria sequelas daquele tiro pelo resto da vida. >>O que é racismo ambiental, e qual sua relação com a Covid-19 Minha filha morreu, e levamos mais de um dia para conseguir liberar o corpo para o enterro. Pode parecer estranho mas, àquela altura, eu só queria que tudo acabasse depressa. Queria poder enterrar minha filha, orar por ela. A agonia da espera se uniu à agonia da perda. No dia 18 de maio, quando soube que João Pedro tinha desaparecido, soube também que era essa uma das muitas agonias que a mãe do menino enfrentava. >>Milícias impedem população de se isolar contra a Covid-19 Cada pessoa vive a dor da perda de um jeito. João Pedro e minha filha foram duas crianças cujas vidas foram tiradas pelo Estado. Mesmo assim, não quero igualar as experiências. Cada perda é única. O que sei é que a gente, que fica para trás, continua a ser mãe. Sofre e carrega essa dor para sempre. Se eu pudesse, diria isso à mãe de João Pedro. Diria que essa é uma dor que não passa. A ferida cicatriza, mas dói para sempre. Apesar dela, viva. É o que João Pedro gostaria que você fizesse. Viva par dar orgulho ao seu filho. Hoje, se eu estou viva, é porque quero dar orgulho à Ágatha. Faça o mesmo por ele. Desde que minha filha morreu, minha vida é voltada para as memórias. Quem conheceu Ágatha sabe que ela era um amor de criança. Era alegre, falava olhando nos olhos. Era inteligente. Eu dizia a ela: “Ágatha, você não entende das coisas fáceis. Mas sabe tudo das coisas difíceis”. Porque ela sabia ser doce. Gostava de pensar e falar. Ágatha não tinha vaidades. No ano passado, consegui matriculá-la numa escola nova. Quem é mãe teme essas mudanças: ‘será que ela vai se adaptar?”, fiquei pensando. Mas ela era tão esperta. Fez amigos tão depressa, só tirava 10 nas provas. Eu ficava em êxtase: ‘Ágatha, você é muito inteligente’, eu dizia para ela. Mas ela não ligava. Olhava para mim meio confusa, sem entender o elogio. Ia comigo para onde quer que eu fosse. As pessoas nos achavam muito parecidas. A semelhança era somente física: acho que Ágatha era muito mais madura que eu. Ela era uma parte de mim, e continua sendo. O primeiro dias das mães que passei sem ela foi das coisas mais doídas que já vivi. Numa data comemorativa, todo mundo fica feliz. As famílias se encontram, sorriem, brincam. Eu era a diferente. Eu, hoje, tenho que descobrir como me reencaixar no mundo. Desde que Ágatha foi morta, tento transformar a dor em força para lutar. Sei que o que aconteceu a ela não foi um acidente. Quem empunha uma arma sabe que tem, em mãos, o poder de matar. Quem dá um tiro sabe que a bala pode atingir alguém. Minha filha foi morta pela polícia, que deveria existir para protege-la, mas que fez dela um alvo. Nos últimos meses, conheci muitas mães que passaram pelo mesmo. Mães cujas famílias são vítimas do Estado. Elas me procuram, trocamos experiências.  São mães que, como eu, tentam se reencontrar no mundo. Busco, aos poucos, meu caminho como ativista pelos direitos humanos. De maneira discreta. Esse não foi um caminho que eu escolhi. Foi um caminho que o Estado me impôs quando tirou minha filha de mim. Quem vive em favela conhece essa brutalidade. Quando se trata de polícia, tudo o que a gente vê é troca de tiros e morte. Moro no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Quando começa uma operação policial, a gente sabe o que fazer: é preciso correr. Mas, correr para onde? Ninguém sabe de onde o tiro virá.  Os helicópteros sobrevoam as casas voando baixo.  A gente escuta o tiroteio e se esconde. É aterrorizante. O policial que mata faz isso com o aval do Estado. É o governo que autoriza as operações. Muitas acontecem cedo pela manhã, ou no começo da tarde: horários de entrada e saída das escolas, quando há crianças circulando nas ruas. É inadmissível. A polícia deveria agir com tática, com inteligência. No meio dessa brutalidade, morrem os inocentes. Quando Ágatha era viva, passamos muitas noites escondidas no box do banheiro. Era o lugar mais seguro de casa. Eu estendia um edredom no chão e dormíamos lá. Na semana em que João Pedro morreu, precisei fazer o mesmo. Deitada no banheiro, pensava: ‘quando isso vai parar?’. É o que me pergunto ainda agora. Quantos mais precisam morrer? No dia em que João Pedro morreu, começou a circular um desenho que mostrava Ágatha e ele se encontrando no céu. A imagem me deixou muito emocionada. Sou bastante religiosa. Minha fé é o que me mantém firme. Por causa dela, acredito que minha filha esteja no céu. As crianças vão direto para lá. Gosto de pensar que ela recebeu João, e que hoje os dois estão felizes.  É o que peço a Deus. Ao Estado, só peço que pare de matar nossas crianças. Elas têm o direitos de viver, e de ser felizes.” Foto de topo - Nando Motta -------- *João Pedro Mattos Pinto tinha 14 anos quando foi baleado por policiais dentro da própria casa, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Brincava com os primos quando policiais invadiram a residência. Ferido, foi levado pela polícia, que disse que lhe prestaria socorro. Cerca de 17  horas depois, seu corpo foi identificado por familiares no IML do Rio.  No último dia 26, um ato online marcou os sete dias de morte do adolescente, e cobrou o fim das operações policiais no estado. Nas últimas duas semanas, ao menos 17 pessoas morreram no Rio de Janeiro durante operações semelhantes, de acordo com levantamento da Rede de Observatórios da Segurança.

Mulheres

“Bolsonaro instaurou uma guerra contra as mulheres” diz Amelinha Teles

No final de 2019, a ativista Amelinha Teles  — referência na luta feminista e contra a ditadura militar no Brasil —  se envolveu em uma breve discussão com um de seus vizinhos. A coisa toda aconteceu por causa de uma festa. No começo dos anos 1980, Amelinha ajudou a fundar a União de Mulheres do Município de São Paulo. Um dos primeiros grupos feministas a surgir no Brasil pós-ditadura, a organização ocupa o mesmo imóvel — uma casa ampla, repleta de plantas— há quase 40 anos. Todo mês de dezembro, o aniversário da União de Mulheres é marcado por festividades que extravasam os terrenos da casa para ocupar a rua, numa celebração que envolve a vizinhança. Em 2019, o bloco Ilu Obá de Min presenteou a organização com um cortejo. “Eu convidei todos os vizinhos para assistir, e contei que aquele era um bloco de mulheres negras”, conta Amelinha, entre divertida e indignada. Um dos vizinhos desaprovou a ideia. Disse a Amelinha que preferia distância porque, nas palavras dele, “esse povo faz muita coisa errada”. Amelinha lembra que não disfarçou a irritação. Na resposta, reuniu toda a paciência e didatismo desenvolvidos durante seus anos de magistério: “Muita coisa errada? Mas coisa errada de que tipo?”, lembra de ter perguntado, para desconcerto do interlocutor. “Por acaso o senhor conhece o Ilu Obá de Min? Saiba que é muito bonito”. O vizinho não conhecia. Contrariado, encerrou a conversa. A festa aconteceu sem ele: “E foi linda”.  >>As conquistas do movimento feminista brasileiro Aos 75 anos ( “quase 76”, ela se apressa em dizer), Maria Amélia de Almeida Teles é uma senhora de cabelos muito brancos, que usa curtos — a não ser por uma única mecha de fios mais longos que partem da nuca. Sua voz é serena e firme. É festeira e  gosta de conversar.  Gosta tanto que se esforça para manter diálogos mesmo naquelas situações em que o interlocutor — como no caso do vizinho ranzinza — parece avesso à conversa (ou pobre de argumentos) : “Eu cheguei num ponto em que acho que a gente precisa ser muito didática” diz, sentada no sofá de uma sala estreita e apinhada de cartazes de caráter feminista. Junto à porta, dando as boas-vindas a quem chega à União de Mulheres, um auto-retrato da mexicana Frida Kahlo . Na parede oposta, uma imagem da personagem Mafalda estampa um estandarte roxo. A peça aconselha quem observa a “lutar como uma menina". “ Precisamos ser didáticas porque é importante que as pessoas entendam a gravidade do que está acontecendo”. >>Flávia Oliveira: "Não há cortina de fumaça, há um projeto de governo" As coisas graves a que Amelinha se refere são principalmente aquelas relacionadas à presidência da república. Conhecido por suas declarações misóginas desde os tempos de deputado federal, o presidente Jair Bolsonaro já afirmou que sua filha foi resultado de “uma fraquejada” e que cabe às mulheres "edificar o lar". Dias  antes da entrevista de Amelinha à Brasil de Direitos, o presidente insinuou que uma jornalista da Folha de S. Paulo trocara sexo pelas informações publicadas em uma reportagem. As declarações fizeram Amelinha lembrar do general João Baptista Figueiredo. Último dos presidentes militares, Figueiredo afirmou, nos anos 1980, que “cavalo e mulher, só depois de montar ou casar”. “Mas a declaração de Bolsonaro é ainda mais grave”, afirma ela. “Figueiredo não chocou ninguém. Na época, se pensava que isso era natural. Mas a sociedade mudou. Todo mundo sabe que esse tipo de comentário não é mais aceitável — e que os efeitos disso reverberam na vida da gente”.  >>A reintegração de posse de Erica Malunguinho Na avaliação dela, Bolsonaro cerrou fileiras contras as mulheres: “Ele instaurou um clima de guerra contra nós”. Elegeu ainda outros alvo, que ataca com frequência: os povos indígenas, as populações tradicionais, a população negra e LGBTI+. “Os comentários do presidente estimulam atos de violência contra essas pessoas”, diz. O quadro geral, no entanto, não a desanima. Mesmo indignada, Amelinha permanece serena: “Participei do movimento feminista durante a ditadura”, explica. " A experiência me ensinou que, em momentos assim, precisamos permanecer organizados. Promover debates, trabalhar com a educação. Para que as pessoas entendam esse processo e reajam”.  Em 1972, Amelinha e o marido foram levados à Operação Bandeirantes (Oban) onde foram torturados. Uma vez fora da cadeia, caiu na clandestinidade (Foto: reprodução Facebook) Foi para promover diálogo e reagir a tempos bicudos que Amelinha e suas companheiras criaram a União de Mulheres em 1981. Quando o grupo se formou, o Brasil caminhava para o fim da ditadura militar, e havia a expectativa de uma nova Constituição. A organização participou ativamente dos debates que culminaram na Carta de 1988. A movimentação garantiu que o texto incluísse reivindicações defendidas pelos movimentos de mulheres desde meados dos anos 1970. Coisas que hoje talvez soem naturais, como a igualdade jurídica entre os gêneros, mas que as leis ainda não asseguravam. Na época, a participação dos grupos feministas foi estimulada pelo governo federal, através do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher : “Mas, feita a Constituição, o governo decidiu que não precisava mais apoiar os movimentos de mulheres. Porque os direitos, disseram, estavam garantidos”, lembra Amelinha.  O revés político fez a União de Mulheres repensar sua atuação. Desde então, o grupo trabalha no campo da formação popular feminista. O objetivo é municiar mulheres com informação, para que lutem por seus direitos. Pela casa, na região central de São Paulo, passaram diferentes coletivos — ou coletivas, no feminino mesmo — ao longo dos anos, que procuraram o espaço para realizar rodas de conversa e eventos: “Essa casa sempre esteve aberta para a mulherada”, diz Amelinha. >>Como Nívea Sanino usa poesia para discutir direitos humanos A abertura já fez do imóvel palco de embates entre diferentes correntes do feminismo: “Lembro quando a casa ficou cheia de feministas jovens. Elas nos achavam, feministas velhas, muito arcaicas”, conta Amelinha. “Eu achei ótimo. As jovens deram novo ritmo ao movimento”. Desde 1994, a União de Mulheres é também uma das organizações brasileiras responsáveis pelo projeto Promotoras Legais Populares (PLPs) . A ideia surgiu no Chile e consiste em oferecer formação em direito a mulheres que possam atuar como lideranças em suas comunidades. Chegou ao Brasil em 1992, durante um seminário organizado pelo Comitê Latino Americano para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem) de que Amelinha participou: “Na hora em que ouvi a ideia, olhei para uma colega que me acompanhava  e disse — é isso o que precisamos fazer”. Anualmente, a União de Mulheres reúne pouco mais de 100 interessadas para discutir direitos e participação popular por cerca de 10 meses, todos os sábados. Parte das aulas acontece na Câmara Municipal de São Paulo. Os encontros falam sobre a história da Constituição Brasileira, explicam o funcionamento de leis (como a Lei Maria da Penha) e ensinam como acessar serviços públicos. As aulas são gratuitas, e ministradas por pesquisadoras, ativistas, juízas e promotoras. >>Professora cria projeto para prevenir suicídio adolescente em Belém O projeto acontece ininterruptamente há 26 anos, e é dos que mais orgulha Amelinha:  “Abrimos turmas novas todos os anos. Com dinheiro ou sem”, conta. “Nesse particular, somos muito corajosas”. Com o tempo, as PLPs formaram uma rede, que se espalha por toda a cidade de São Paulo e pelos municípios vizinhos. A movimentação já resultou em avanços sociais importantes: foi graças a uma ação movida pelas PLPs que, em 1997, o estupro em local de trabalho foi reconhecido como acidente trabalhista, com direito a afastamento custeado pelo INSS.  >> "Mineração levará morte aos povos indígenas", diz Joênia Wapichana Não deixa de surpreender, no entanto, que, depois de quase 30 anos, os temas abordados no curso pouco tenham mudado. Como na primeira edição, de 1994, o combate à violência contra a mulher ainda é assunto central. Hoje, a taxa de feminicídio no Brasil é a quinta maior do mundo. O país parece regredir nesse campo: nos últimos cinco anos, o orçamento da Secretaria da Mulher — um dos órgão federais encarregados de encabeçar ações de combate à violência contra a mulher — caiu de R$119 mi para R$5 mi. O mesmo vale para direitos reprodutivos: pauta antiga, o acesso a aborto seguro é limitado. Surgem projetos de lei que pretendem proibir o procedimento mesmo naqueles casos em que, hoje, ele é legal, como nas hipóteses de estupro ou de feto anencéfalo. “Em termos práticos, em que foi que avançamos nesses últimos anos?”, questiona Amelinha. “Há a Lei Maria da Penha, há uma lei do feminicídio. Mas o Brasil é ainda um dos países que mais mata mulheres”. Se a resposta do Estado pouco avançou, mudou ao menos a consciência política das mulheres que procuram o projeto. Amelhinha observa que elas chegam mais aguerridas, e se orgulham de ser feministas: “As promotoras legais contribuíram para o avanço de um feminismo popular importante”, avalia. “Não foram as únicas responsáveis por isso, claro. Mas fazem parte dessa mudança”.     Protesto da União de Mulheres no 8 de março de 1983 (Foto: acervo União de Mulheres) Amelinha fala sobre mudanças no Brasil com a autoridade de quem acompanhou muitas — e de quem trabalhou para promover transformações. Filha de um operário,  passou a infância e a adolescência em Santos. Na época, a cidade do litoral paulista era conhecida como a “Moscou brasileira”: “Havia muitos comunistas entre os funcionários do porto”, conta. “E foi ali que começou a minha formação política”. Às vésperas do golpe militar de 1964, se filiou ao Partido Comunista do Brasil. Em 1972, foi presa pelo regime , que sequestrou seus filhos, então com quatro e cinco anos de idade, e os levou para vê-la ser torturada. Foi interrogada pelo coronel Carlos Brilhante Ustra — o mesmo que Jair Bolsonaro elegeu como ídolo e cuja biografia diz manter como livro de cabeceira. Saída da prisão, caiu na clandestinidade.  Naqueles tempos, Amelinha já era feminista. Mas não falava a respeito publicamente: “Numa ditadura, você não tem a chance sequer de organizar debates para elucidar melhor certas ideias”, diz ela.  A militância esquerdista tampouco era afeita a discussões de gênero ou pautas identitárias: “A esquerda da minha época achava que direitos humanos eram coisa da burguesia” afirma. “A posição era de que os direitos humanos foram inventados pela revolução francesa, que era uma revolução burguesa”.  O quadro começa a mudar a partir de 1975, quando as Nações Unidas declararam aquele como Ano Internacional da Mulher. Amelinha faz parte de uma segunda onda do movimento feminista brasileiro, que se organizou em plena ditadura militar e que foi influenciada por discussões que se desenrolavam na Europa. Exiladas na França e na Inglaterra, ativistas brasileiras liam Simone de Beauvoir e se reuniam em pequenos grupos, para discutir direitos e formas de conquistá-los: “O feminismo desse período, no Brasil, alia pautas específicas ao combate à ditadura”, explica a professora Celi Pinto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e autora de “Uma história do feminismo no Brasil” (Fundação Perseu Abramo/ 2003). “Era um movimento muito politizado. Exatamente porque, no período, ser feminista era ser anti regime militar”.  Animadas pelas ideias em discussão, as ativistas que continuavam no país criaram uma importante imprensa feminista. Ainda em 1975, Amelinha e cerca de 30 mulheres fundaram o jornal Brasil Mulher: “Era o auge da ditadura. O jornalista Vladimir Herzog seria morto naquele mesmo ano”, lembra ela. A publicação falava de assuntos diversos, sempre da perspectiva de uma redação formada apenas por mulheres.  Abordava temas atuais ainda hoje: dos direitos das trabalhadoras domésticas à criação de políticas de saúde específicas para o público feminino. O primeiro número estampava, na capa, a fotografia de uma mulher jovem, negra e grávida. “O Brasil Mulher era ainda tímido na forma de se posicionar” avalia Amelinha, mais de quatro décadas depois. “Mas, numa ditadura, tudo é muito controlado”.  Mais ou menos na mesma época, começaram em São Paulo mobilizações pela construção de creches. A educação infantil é outra bandeira defendida com afinco por Amelinha, que considera o acesso à creche em horário integral uma medida anti-patriarcal. O raciocínio é o de que a educação das crianças, longe de ser uma obrigação feminina, deve ser encarada como uma responsabilidade da sociedade. "Mas os homens nunca lutariam por isso. Coube às feministas assumir essa bandeira", afirma. Para seus companheiros de militância, essas pequenas batalhas soavam desimportantes: “Mas eu gosto das pequenas causas”, diz Amelinha, com alguma ironia. “Eles pensam que não. Mas são as pequenas causas que vão provocar as grandes mudanças”.  Essa filosofia parece guiá-la ainda hoje. Amelinha faz graça da própria idade, e diz manter uma rotina mais agitada do que gostaria. Com alguma frequência, participa da organização de livros e eventos acadêmicos. Ministra palestras, sempre que os convites surgem. E jamais falta a um protesto de rua, quando acha a causa justa: “Eu acho importante continuar a atuar, pelo movimento”, diz, com simplicidade. São seus pequenos atos em prol do diálogo. Todos os anos,sai pelas ruas da Bela Vista, na região central de São Paulo, acompanhando o bloco de Carnaval organizado pela União de Mulheres. O cortejo reúne muitas das fundadoras do grupo, e cruza o bairro até a Casa de Dona Yayá, um casarão do século XIX transformado em museu. Diverte-se com a folia. É sua fórmula para resistir a tempos difíceis: “Apesar dos problemas, tudo o que a gente faz é muito animado”.

Crianças e adolescentes

Professora cria projeto para prevenir suicídio adolescente em Belém

A professora Lília Melo participava de uma premiação em Brasília, no final de  2018, quando seu celular começou a vibrar: “Professora, o Pedro* se matou”, diziam as muitas mensagens que chegavam sem parar. Lília lembra que perdeu o chão. Desde o começo de 2018, Lília coordena o projeto Cineclube Terra Firme. A iniciativa reúne adolescente do bairro de mesmo nome — um dos mais pobres e com maiores índices de violência policial da periferia de Belém (PA) —  para discutir e produzir arte. O trabalho resultou numa plataforma de produções audiovisuais, na criação de um circuito de saraus e no prêmio Professores do Brasil, concedido a Lília pelo Ministério da Educação (MEC). Era por causa desse reconhecimento que ela fora a Brasília naquele final de ano. Frente à notícia do suicídio,conta que mal conseguiu dar atenção à cerimônia de premiação: “Eu me peguei questionando tudo que a gente havia feito”, afirma. “De que adiantavam as nossas discussões, se os jovens estavam se matando?”. >>Como educar crianças para respeitar a liberdade religiosa Pedro, o menino que morrera, era um dos mais de 60 adolescentes que participavam das atividades promovidas pela professora. Quieto e sensível, era homoafetivo e tinha um relacionamento ruim com a família evangélica e conservadora. De volta a Belém, Lília decidiu que precisava ampliar o escopo do projeto: “Percebi que não é só a bala de um policial que mata um menino negro na periferia” diz. “A sociedade também mata esse menino, quando vira as costas para ele”. Desde o final do ano passado, ela, outros professores e voluntários da região promovem encontros regulares entre pais, mães e filhos. São rodas de conversa destinadas a construir laços de afeto e permitir o diálogo franco — e muitas vezes complexo— entre gerações: “Percebemos que esses meninos tinham uma demanda afetiva muito grande e que não era suprida. Não havia diálogo em casa”, conta ela. Os eventos foram batizados de Amor Preto, Minha Cria, e acontecem aos finais de semana. Desde outubro, quatro já ocorreram. A esperança é  de que possam  mitigar conflitos e ajudar a identificar adolescentes que precisem de ajuda, de modo a prevenir um problema que cresce: o de suicídio entre jovens. >>A luta dos índios Guarani no Pico do Jaraguá  Atividade promovida durante um dos encontros Amor Preto, Minha Cria (Divulgação) No Brasil da última década, a questão  ganhou contornos de epidemia. De acordo com dados preliminares do ministério da Saúde, 1031 adolescentes e crianças entre 10 e 19 anos cometeram suicídio em 2018. O número representa um aumento de mais de 40% em relação a dez anos antes. Há o temor de que as estatísticas subestimem o problema: a pasta calcula que 20% dos casos não são notificados. >>A reintegração de posse de Erica Malunguinho Em Terra Firme, o bairro onde Lília vive e trabalha, há agravantes. A região é apontada como uma área de disputa entre milicianos, traficantes e policiais. Em 2014, o bairro ficou marcado por concentrar 6 das 10 mortes registradas durante uma das maiores chacinas já ocorridas na Grande Belém. Os casos de violência policial são recorrentes: “Em Belém, morar em Terra Firme significa ser visto como bandido”, conta Lilia. A maior parte dos moradores do bairro é negra. A violência, o preconceito e a estigmatização minam a autoestima e a saúde mental dos jovens.  >>Como Nívea Sabino usa poesia para discutir direitos humanos O trabalho de Lília e de seus colegas começou com um diagnóstico entre as famílias. Além de Pedro, havia notícias de outros jovens que se automutilavam ou falavam em se matar. Também se acumulavam os relatos de violência doméstica, alcoolismo e violência sexual: “ Notamos que o problema não partia dos adolescentes. Ele surgia nas famílias, e se refletia nos jovens”, diz Lília. “Por isso, nossas ações deveriam envolve-las”.  Não era uma tarefa simples. Nos primeiros encontros informais,antes do surgimento oficial do projeto, o comparecimento foi baixo: “Vieram os pais mais preocupados e mais presentes”, lembra. Faltaram, justamente, as famílias que enfrentavam problemas sérios. Para atraí-las, Lília decidiu usar a arte: “Muitos desses meninos e meninas desenham, fazem música. Mas são vistos pela comunidade como vagabundos”, conta a professora. Lília passou a convidar famílias inteiras para ver apresentações dos adolescentes: “Eu pensei: por que a gente não convoca um encontro e faz, ao mesmo tempo, uma exposição? Para valorizar esses jovens artistas?” A estratégia já havia sido testada pela professora anteriormente. O Cineclube Terra Firme — o projeto que lhe valera a premiação do MEC — levara, para dentro da escola, os coletivos de música e artes plásticas mantidos pelos adolescentes do bairro. A iniciativa teve o mérito de permitir aos jovens se reconhecerem como artistas. A ideia era estender a proposta aos pais.  Hoje, as reuniões do Amor Preto, Minha Cria acontecem no pátio de uma escola de educação infantil. O nome é inspirado no título de uma música do carioca Cizinho Afreeka. Na letra, o rapper narra o orgulho que sente pela filha, uma menina de 17 anos. É esse tipo de proximidade que Lília quer nutrir: “Os encontros permitem que os conflitos venham à tona” diz ela. “E as rodas de conversa dão segurança para o jovem se abrir”.  Em mais de uma ocasião, segundo ela, as reuniões abrigaram discussões sobre violência e sexualidade. Alguns jovens se sentem seguros para se assumir homoafetivos diante de amigos e família: “Como estão na roda, os pais se veem inclinados a escutar o que o filho tem para dizer. Isso reduz atritos”. As dinâmicas tentam suavizar relações que são, por vezes, conflituosas: “Há um momento em que os filhos sentam no colo das mães. Depois elas sentam no colo dos filhos. A ideia é mostrar que devemos cuidar uns dos outros”, diz Lília. Ela própria participa das atividades, com o filho de 14 anos: “E ele também senta no meu colo”, afirma, rindo da situação inusitada. “Já é grande, mas ainda é o meu bebê”. *O nome do adolescente foi trocado para preservar sua identidade Foto de topo: A professora Lilia Melo (Reprodução/ Fundo Brasil de Direitos Humanos)

Migrações

Brasileira ensina improviso contra traumas da imigração

Não é raro que as oficinas ministradas pela paulistana Nadja Moraes terminem em choro. Os encontros duram dois dias inteiros e acontecem em Zurique, na Suíça, onde ela mora há mais de três anos. Lágrimas são corriqueiras: “Durante os workshops, muitas emoções vêm à tona”, explica Nadja, uma moça de 35 anos e cabelos negros encaracolados. O choro não surpreenderia não fosse por um detalhe: há mais de 17 anos, Nadja é palhaça. Em seus workshops tenta, através do riso e da improvisação, diminuir o desconforto — e amenizar os traumas — que imigrantes e refugiados enfrentam logo que chegam à Europa.  >> Como Nívea Sabino usa poesia para discutir direitos humanos No campo dos cuidados a imigrantes, algumas profissões são recorrentes. Há enfermeiros e psicólogos, capazes de tratar os impactos físicos e mentais de uma experiência potencialmente traumática, a migração. Há também especialistas em relações internacionais, advogados e assistentes  sociais. Nas últimas décadas, ganharam espaço profissionais que trabalham com arteterapia e que tentam, por meio de variadas formas de arte, ajudar imigrantes e refugiados a superar traumas e estreitar vínculos.  >> Com poesia, Florência busca visibilidade para imigrantes LGBTI+ Nessa frente, há instituições já veteranas, como a Clowns Without Borders (ou Palhaços sem Fronteiras). Criado em 1933 em Barcelona, na Espanha, o grupo atua em mais de 40 países, sobretudo naqueles hoje em conflito. Há também o grupo "Pallasos em Rebeldía" (Palhaços em Rebeldia), criado pelo artista espanhol Iván Prado, e que usa a arte para denunciar violações de direitos. >> O autocuidado tem função política, defende ativista Nadja segue estratégia parecida. Seus encontros colocam para interagir imigrantes de diferentes nacionalidades. São peruanos, mexicanos, alemães, somális e chineses. São também histórias de vida e de migração muito diversas: “Nas migrações, há dois mundos paralelos”, conta Nadja. “Há  os que migram com bons empregos e perspectivas favoráveis. E há os que estão na batalha por condições básicas de refazer suas vidas”.  >> Como educar crianças para respeitar a diversidade religiosa A esperança é de que , ensinadas a improvisar, essas pessoas experimentem com menos dor a vida em um país estrangeiro. O aprendizado foi importante para a própria Nadja: “Quando me tornei imigrante na Europa, eu me sentia completamente inadequada, como se não pertencesse a lugar nenhum”, conta. “Entendi que esse era o momento mais importante para eu ser palhaça. Porque o palhaço é o maior desajustado que existe”.  A chave, segundo ela, reside na resiliência do palhaço. Para fazer graça, o artista busca o erro: usa roupas largas, procura o absurdo. Tropeça e cai, de propósito — para logo depois levantar. “As quedas de um palhaço não são quedas”, diz Nadja. “São rodopios”. No palhaço, aquilo que é apontado como um erro — o andar claudicante, as roupas espalhafatosas — vira um trunfo. Para Nadja, algo parecido acontece entre imigrantes: “Quando nos tornamos imigrantes, parece que nos tornamos errados”, conta. “Não sei me comportar do jeito certo, falar do jeito certo. Isso, unido às dificuldades práticas do dia a dia, limita muito e desencoraja a integração" Parte do trabalho nas oficinas consiste na realização de exercícios não-verbais. Em silêncio, se comunicando apenas com as expressões e o corpo, os participantes tentam se soltar e construir vínculos. A estratégia busca transpor uma dificuldade comum entre imigrantes, que nem sempre falam a língua do país de destino: "Você se vê num mundo onde, de repente, é analfabeto de novo. E, com estes exercícios de improviso, a gente trabalha a presença, o olhar, e dessa forma acessamos a nossa vulnerabilidade” , explica. “É a partir da vulnerabilidade que a gente se conecta com o outro”. É assim, também, que Nadja se aproxima das pessoas que participam do workshop. No começo das atividades, às vezes acontece de parte do grupo demorar a se enturmar. Nadja viveu isso tempos atrás, numa atividade que envolveu um grupo de homens turcos: “Eles interagiam somente com homens. Quando cheguei para ministrar a atividade, me olharam de um jeito estranho. Havia uma questão de gênero forte”, conta. A saída foi usar o estranhamento a seu favor. Nadja dividiu a turma em duplas, que deviam se encarar sem dizer palavra. Parte das duplas era formada por um homem e uma mulher. “É um exercício que traz muitas emoções à tona”, conta. “Muitos relaxaram neste momento, se abraçaram e, a partir deste exercício, passaram a conversar mais. Inclusive com as mulheres,de forma mais harmônica e respeitosa”. Foi uma saída pensada de improviso, e que funcionou: “Nós, que utilizamos exercícios de improviso, nunca estamos despreparados para o desconhecido”, define.   Foto: A brasileira Nadja Moraes (arquivo pessoal)

LGBTI+

A reintegração de posse de Erica Malunguinho

A deputada estadual  Erica Malunguinho (PSOL- SP) chegou ofegante ao auditório Teotônio Vilela, na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), e logo pediu o microfone: “Eu estou sem voz, gente”, disse, assim que percebeu que o aparelho estava desligado. “Porque hoje eu fui pastora: preguei o dia inteiro. Foi exaustivo”, explicou, arrancando risos dos presentes.  Era começo de uma noite chuvosa e Malunguinho tivera um dia particularmente agitado. O motivo da correria era o projeto de lei 346/2019. De autoria do deputado Altair Moraes (Republicanos) o texto defende  que o sexo biológico seja adotado como único critério para definir se um atleta é homem ou mulher, e se deve competir em equipes femininas ou masculinas. Caso aprovado, o PL pode inviabilizar a presença de atletas transgênero nos esportes: tornaria ilegal que a  jogadora de vôlei Tifanny, por exemplo — uma mulher trans que joga na equipe feminina do Bauru — participasse de competições travadas no estado de São Paulo. A votação da medida, que tramita em regime de urgência, fora marcada para aquela tarde. Em meio a embates sobre a reforma da previdência dos servidores paulistas, e depois de sofrer pressão da oposição, os parlamentares mudaram de ideia. Já no começo da noite, decidiram que a votação seria adiada para o ano seguinte. >>Como educar crianças para respeitar a diversidade religiosa  O adiamento foi, em parte, costurado por Malunguinho. Ao longo de todo o dia, ela circulara pelos gabinetes da Assembleia, convencendo colegas a votar contra o PL. Durante a sessão plenária, quem olhasse do mezanino poderia vê-la abordando parlamentares a cada oportunidade: “Eu estava ali que nem uma pomba-gira cigana distribuindo a palavra de Exu", resumiu. “Consegui virar dois votos a nosso favor”, garantiu, sem revelar de quem.  Mesmo com a chuva que assolava São Paulo, cerca de 30 ativistas tinham se reunido para acompanhar a discussão presencialmente. Encerrada a sessão no plenário, o grupo rumara para o Teotônio Vilela. Apesar da voz ligeiramente rouca, Malunguinho dava poucos sinais de cansaço. Enquanto aguardava o microfone ser conectado, fazia graça, emendando uma história na outra. No pequeno tablado do auditório, era acompanhada pelas também deputadas Isa Penna (PSOL-SP), Mônica Seixas e Erika Hilton, co-deputadas pela Bancada Ativista. “Deixa eu arrumar meus óculos para conseguir enxergar vocês melhor”, brincou, mirando os rostos logo à frente. “Agora que eu uso óculos, consigo ver cada poro, cada imperfeição de pele, cada maquiagem mal aplicada”, disparou ligeira, no que foi seguida por nova leva de risadas.  >>Como Nívea Sabino usa a poesia para discutir direitos humanos Entre idas e vindas, o PL 346 tramita na Alesp desde abril. Nesse meio tempo, entrou e saiu da pauta de votação por três vezes. Em entrevistas, o deputado Altair Moraes chegou a defender o texto como uma medida moralizadora: “Elaborei vários projetos que garantem idoneidade às competições esportivas” definiu, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Segundo ele,  atletas trans possuem vantagens biológicas capazes de desequilibrar uma disputa. “O homem cresce com um nível de testosterona maior. Possui massa magra e densidade óssea maiores. Justamente por isso, as competições são divididas entre masculino e feminino”, asseverou, noutra ocasião.  >>Jurema Werneck - "É preciso recolocar a utopia" Naquela tarde, enquanto o projeto ainda ameaçava ser votado, Malunguinho e as colegas circularam, entre os deputados, uma carta assinada pelo endocrinologista Magnus Dias da Silva, da da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Enxuto, o texto afirmava não haver evidências de que atletas trans tivessem qualquer vantagem competitiva. “Esse, na verdade, é um projeto excludente”, afirmou a deputada para a plateia do auditório, abandonando o tom jocoso de minutos atrás. “Existe uma demanda reprimida pelo processo de exclusão e apagamento da população LGBT. Esse público, que estava escondido, agora se sente legitimado". Na avaliação dela, o adiamento da votação podia representar um trunfo: mais meses disponíveis para, quem sabe, convencer a Assembleia a votar contra a medida. “Mas, se não for possível barrar esse texto excludente pelo voto, vamos levar a questão ao STF”, declarou.  >>Afrofuturismo coloca pessoas negras como protagonistas, afirma autora Diante do resultado agridoce, preferiu encerrar a fala numa nota alta: “Esse resultado, hoje, demonstra a importância de estarmos todos juntes. Demonstra a importância de estarmos aqui , cuidando de todes”, afirmou, tomando o cuidado de manter neutro o gênero dos pronomes. Juntando as duas pontes da noite, abandonou o tom solene para se despedir com um sorriso : "É isso. Axé e simbora", disse, antes de seguir para mais um compromisso.  Erica Malunguinho é uma mulher de 38 anos que usa os cabelos negros longos trançados. Boa contadora de histórias, costuma entremear suas frases com metáforas e parece ter facilidade para manter o bom-humor. É uma característica de que se vale na política. Não raro, responde com sorrisos, e um leve deboche, às provocações e críticas dos adversários.  “A gente tem é que rir um pouco”, resumiu em uma tarde em meados de novembro. O encontro no Teotônio Vilela aconteceria só dali a algumas semanas, mas Malunguinho aceitara conversar com a Brasil de Direitos sobre o andamento do projeto de lei.    Antes do início da entrevista, no entanto, um incidente no plenário desviou a atenção da deputada.  A provocação, que ela tentava encarar sem perder a ternura, partira do deputado Douglas Garcia (PSL). Dizendo-se incomodado com as viagens de Malunguinho, Garcia se queixou da colega: “A deputada Erica Malunguinho nunca para na Assembleia. Ela vai para Comissão de representação quase toda semana. Um verdadeiro absurdo”, afirmou, acrescentando que a Alesp não deveria bancar deslocamentos para encontros com “transquilombolas” — um neologismo, de autoria de Garcia, que unia as palavras transexuais e quilombolas.  O motivo da queixa  era uma viagem que Malunguinho tinha marcada para dali a alguns dias, com destino a Palmares, em Alagoas. Outros eventos semelhantes tinham sido distribuídos pela agenda da deputada, como parte das atividades previstas para o mês da consciência negra. No púlpito da Alesp, Garcia foi seguido pela deputada Janaína Paschoal: “Todos nós temos muito orgulho da deputada Erica, reconhecemos sua luta e seus méritos”, começou Paschoal para, a seguir, adicionar a ressalva de que as muitas viagens da parlamentar causavam estranhamento à bancada do PSL.  Apesar de  calma, Malunguinho não disfarçava a contrariedade: “O grande problema é que eles não entendem de orçamento” disparou, séria. “Falam que a gente onera a casa, mas a minha mandata não usa nem 40% da verba de gabinete”. O semblante fechado foi logo substituído por um sorriso assim que uma amiga da deputada apareceu à porta da sala, para um abraço rápido: “Você viu? Eles estão tentando acabar comigo”, riu a parlamentar. “Mas eles não vão não”.  Àquela altura, Malunguinho se aproximava do final de seu primeiro ano de mandato. Ou mandata — ela prefere o termo no feminino. Apesar de recém-chegada, como cerca de 40% dos colegas da atual legislatura, já circulava pelos corredores da Alesp com a naturalidade de uma veterena. Acompanhá-la significa ser parado um punhado de vezes, enquanto a parlamentar é procurada por colegas para discutir um projeto de lei, ou conforme funcionários da casa a cumprimentam. Não raro,  elogiam o esmero do figurino: “Ah, deputada Erica. Elegante como sempre”, diria um senhor naquela mesma tarde, enquanto Malunguinho se dirigia ao plenário para fazer as fotos que acompanha essa reportagem.  As muitas gentilezas contrastam com os embates, por vezes acalorados, que cercaram a parlamentar nesses primeiros meses de legislativo paulista: “São, muitas vezes, críticas rasteiras, que fazem a mim e aos meus projetos”, afirmou, fazendo referência à polêmica da tarde.  Considerado um ambiente conservador, a casa já recebeu críticas  pela falta de diversidade: dos 94 deputados, 81% são homens. A maioria, 88%, se declara branca. A eleição de Malunguinho, a primeira parlamentar trans da Alesp (além dela, há a deputada Erika Hilton, uma das nove co-deputadas da bancada ativista), veio acompanhada por alguns choques nesse cenário. “Entender o que acontece comigo aqui é entender o que acontece com as pessoas trans pelo Brasil”, afirmou a deputada. “É muito comum que as pessoas aqui digam que me respeitam.  Alguns elogiam minha roupa, outros dizem que apertam minha mão — como se isso não fosse parte dos pactos mínimos de civilidade”.  O primeiro, e mais rumoroso embate dessa sequência aconteceu ainda em abril. Na ocasião, o deputado Douglas Garcia afirmou que, caso encontrasse uma mulher trans dividindo o mesmo banheiro que sua mãe ou irmã, expulsaria a pessoa “no tapa”. Em resposta, Malunguinho pediu que fosse aberto um processo contra o deputado, por incitação à violência. O desfecho do incidente viria em outubro , quando o Conselho de Ética da Assembleia aplicou uma advertência verbal ao deputado. Mas, o choque mais representativo foi, muito provavelmente, a longa discussão com Altair Moraes pelo PL 346. Ao longo dos meses anteriores, Malunguinho e sua equipe tentaram preencher com ciência uma discussão que, na avaliação dela, fora influenciada por obscurantismo e preconceito: “Nós tentamos estabelecer um diálogo, de modo a debater os prós e contras dessa medida excludente”, disse a deputada. “Eu propus a realização de uma audiência pública, com debatedores indicados por mim e por ele. Mas a audiência foi boicotada”.  Na leitura dela, o projeto fora pensado quase como uma peça de propaganda, destinada a animar o eleitorado de políticos conservadores: “Essa é uma pauta que não partiu dos atletas e que não reflete uma preocupação da categoria. Afinal, quase não há atletas trans competindo profissionalmente”. Às vésperas da votação em plenário, a deputada parecia desanimada com os prognósticos: “Esse projeto vai ser aprovado, porque existe um pacto firmado para que ele passe”, disse.  Mesmo assim, Malunguinho estava satisfeita com o saldo de seu primeiro ano de mandata. Naquela mesma tarde, depois de Douglas Garcia questionar suas viagens a quilombos, o deputado Carlos Giannazi, do PSOl, subiu a tribuna: “A presença da deputada Erica nessa Assembleia é um fato histórico”, disse. Perguntada quanto a se concordava com a avaliação, a deputada vacilou. “Acho que é muito positivo para a Alesp ter alguém como eu aqui”, disse por fim, calculando as palavras. “Porque enriquece, multiplica. Traz ares de diversidade, ainda que de forma ínfima”.  Malunguinho nasceu na periferia do Recife em uma família que tinha por hábito discutir política em casa: “Minha mãe é afilhada de um dos líderes das Ligas Campesinas”, contou. “E minha avó fez vigília na porta da cadeia quando o Miguel Arraes foi preso”.  Então governador de Pernambuco, e vinculado a setores progressistas, Arraes foi deposto e preso pelo golpe militar de 1964. Talvez por influência familiar, a política institucional nunca lhe pareceu um universo distante: “Eu sempre valorizei esse espaço. Porque entendia que em assembleias como essa eram tomadas decisões capazes de influenciar a vida de muitos”. Mesmo assim, por anos, preferiu fazer política por outras vias. Malunguinho cursou pedagogia em São Paulo e, pouco depois, engatou num mestrado sobre história da arte. Deu aulas para adultos, adolescentes e crianças. Até sentir que precisava pensar a educação para além da sala de aula. Foi dessa inquietação que nasceu a Aparelha Luzia. O centro cultural abriu as portas em 2016, no bairro de Campos Elísios, região central de São Paulo. Recebe shows, espetáculos de dança e rodas de conversa. Segundo Malunguinho, é um “espaço de resistência e sociabilidade”. Um quilombo urbano, por onde pessoas negras podem circular sem se preocupar com as restrições impostas pelo racismo.  Já a decisão de disputar um cargo eletivo viria somente em 2018, dois meses antes da data limite para o anúncio das candidaturas. Nas palavras da deputada, a decisão soa tão natural que parece prosaica: “Às vésperas da eleição, eu me peguei pensando em quem nós poderíamos apoiar. Quem poderia representar nossas pautas nesse espaço”, disse. “Cheguei à conclusão de que eu poderia ser essa pessoa”.  Malunguinho se elegeu com 55 mil votos e uma campanha modesta. Recebeu de seu partido, o PSOL, R$ 5 mil para gastos de campanha. O grosso das despesas, pouco mais de R$20 mil, foi coberto através de financiamento coletivo. “A verdade é que eu nunca vi esse espaço como um lugar distante” disse ela, para justificar a naturalidade com que encara a própria eleição. “Porque esse é um lugar ao qual  população deveria ter acesso. Não à toa, eu digo que vim aqui fazer uma reintegração de posse”.  Malunguinho marcou o início desse processo de reintegração com um cortejo, realizado diante da Alesp no dia em que os deputados foram empossados. Vestida de branco, subiu a rampa da Assembleia acompanha pelo bloco Ilu Inã. O evento se inspirava nas cerimônias de coroação das mães de santo: “Eu não inovei. Ninguém aqui está inventando a roda”, desconversou, quando elogiada.  Malunguinho disse que a movimentação não rendeu comentários de seus pares. O evento comunicava, já de saída, sua maneira particular de pensar e fazer política, que mescla arte aos ritos institucionais: “Arte e política são coisas indissociáveis. Nas sociedades tradicionais, elas nunca foram encaradas como categorias estanque”, explicou.  Sua chegada ao parlamento coincidiu com a passagem de uma onda conservadora que, na Alesp e fora dela, varreu a política brasileira. Com seu costumeiro senso de humor, a deputada faz troça do quadro geral: “Essa onda não veio do nada. Essa onda está num mar...perdão mar, por falar assim de você. Mas falaram de onda, então eu fui obrigada”. O mar, no caso, é metáfora para a sociedade brasileira — de desiguladade acachapante e estruturalmente racista — que deu suporte à ascenção da extrema direita. Logo, Malunguinho se explicou: “Eu não vou ser leviana e ignorar que as violações aos pactos de civilidade se exarcebaram. Mas essa onda sempre esteve aí. Pergunta para as trans e para as travestis. Pergunta para o povo preto.” O momento desafia justamente as pautas que Malunguinho elegeu como prioritárias. Além das discussões caras à população LGBTI+, ela tem projetos voltados a pessoas em situação de rua, de valorização de comunidades tradicionais e de combate ao racismo. Para ela, falta à política brasileira tratar de gênero e raça com seriedade. A crítica vale, inclusive para as esquerdas: “De verdade, eu não acho que exista uma esquerda no Brasil”, afirmou. “Uma esquerda de verdade precisa considerar gênero e raça como fundamentos. E não se trata de falar sobre mulheres, sobre pessoas negras, sobre pessoas trans. É preciso que essas pessoas participem dos processos de decisão”. E o que falta para isso acontecer? “Eu não sei. Vergonha?”, respondeu, entre séria e risonha.  Para ela, mais que a clássica divisão direita-esquerda, o que se impõe hoje é uma espécie de falta de civilidade extrema. A onda conservadora, no entanto, não a assusta: “Eu cresci tendo de negociar minha existência”, explica. A experiência, como o humor e a arte, carrega consigo para a política institucional. Enquanto isso, ignorando a onda, Malunguinho trabalha de olho no mar: “Porque a onda passa. É o mar que a gente precisa mudar”.  

Mobilização e articulação

Como Nívea Sabino usa poesia para discutir direitos humanos

Em dias comuns, o bar do Bozó pouco ou nada diferia dos demais botecos espalhados pela periferia de Belo Horizonte. Meio improvisado numa antiga garagem, seu salão era dominado por uma mesa de sinuca. No balcão, eram servidas as bebidas.  O cenário, no entanto, se transformava toda quarta-feira à noite. Eram os dias em que o proprietário Bozó — então um rapaz jovem, na casa dos seus 30 anos — cobria a mesa de sinuca de livros e abria o espaço ao sarau do Coletivoz, um evento que reunia jovens para declamar e ouvir poesia. Tímida, a poeta Nívea Sabino acompanhava aquela movimentação com cautela, mais ouvindo que falando: "Eu frequentava os saraus para descobrir poesia", conta ela, intercalando as palavras a risos curtos. "Levou um tempo até eu tomar coragem para me apresentar".  >>Jurema Werneck: "É preciso recolocar a utopia" Quem hoje vê Nívea recitar seus versos, de cor e sem cola, duvida da reminiscência. Aos 39 anos, Nivea é uma mineira de gestos calmos e voz firme. Usa os cabelos encaracolados curtos , com mechas grisalhas sobre as têmporas. Negra e lésbica, Nívea ganhou projeção justamente ao se apresentar em saraus e slams — competições de poesia falada, com direito a júri e plateia. Fez fama com poesia declamada muito antes de publicar seu primeiro livro de poemas escritos. "Interiorana" foi lançado em 2016 e reeditado no final de 2018. Na obra, mescla lembranças da infância — passada no interior de Minas — a reflexões sobre sexualidade e racismo. O sucesso lhe garantiu reconhecimento e o posto de co-curadora do último Festival Literário Internacional de Belo Horizonte. Mas foi ouvindo versos em saraus que ela se descobriu poeta. Os encontros semanais no bar do Bozó, de que Nívea participou, aconteciam em meados de 2010, e acabaram interrompidos quando o estabelecimento fechou. Foi ali, entre amigos e bebidas, que ela reuniu coragem para expor os textos que escrevia desde há muito tempo em casa, em silêncio, ou em cartas enviadas para amigos: "Descobri, com o tempo, que nunca fui tímida", afirma. "A timidez que eu sentia era, na verdade, reflexo do racismo em mim". >>Afrofuturismo coloca pessoas negras como protagonistas, diz autora Nascido em 2008, o Sarau do Coletivoz foi um dos primeiros a surgir na periferia de Belo Horizonte. Criado por um grupo de poetas e estudantes da região, se inspirou em movimento semelhante que já se espraiava por outras capitais do Brasil. O modelo, segundo seus criadores, foi o sarau da Cooperifa, famoso na zona sul de São Paulo. A orientação a quem quisesse participar era das mais simples: bastava aparecer e, sentindo-se confortável, pedir a palavra e o microfone. Com o tempo, outros encontros do gênero surgiram pela região metropolitana de BH. Hoje, os saraus integram uma espécie de ecossistema cultural que escapa ao circuito comercial, e que envolve os slams e as competições de passinho — as coreografias rápidas do funk. São espaços onde artistas e poetas diletantes encontram a chance de mostrar — e desenvolver — seu talento. No caso de Nívea, os saraus e slams se converteram também em espaço para falar sobre política. Mas à moda mineira: com jeitinho e alguma doçura.   "Ainda persiste o olhar que a mim difere que profundo fere que segregar prefere por questão de tom de cor de pele" Trecho de "Sob os solos ferteis de Igualdade", de Interiorana A quem pergunta, Nívea Sabino diz com orgulho que se considera uma " ativista da palavra ". A alcunha lhe ocorreu depois de um comentário da deputada federal Aurea Carolina. Ao vê-la declamar um poema, Carolina elogiou o engajamento da poeta: " Ela disse que eu fazia ativismo com as palavras ", relembra. A metáfora pegou.  >>Na política de drogas, Brasil se comporta como país colonizado Desde 2013, a poeta faz parte do Fórum das Juventudes da Grande BH. A organização discute temas caros às juventudes das periferias urbanas, como direito à educação, combate a violência policial e ao racismo. Organiza slams e competições de passinho. O evento, batizado de Okupa, pretende estimular a população da cidade a usufruir, por meio da arte, do espaço público. A aposta é a de que, tal qual Nívea, os jovens que participam dos eventos encontrem na  música, na poesia e na dança, canais para reivindicar direitos e discutir temas espinhosos:  “A  oralidade e a arte são manifestações muito fortes nessa fase da vida” diz ela. “O  que a gente vem percebendo é que os slams, os saraus, as batalhas de passinho, são as maneiras da juventude de fazer política.”   "O muro imaginário que Berlim não viu passa por aqui faz curva no Brasil" Trecho de "De concreto, hipocrisia"   Nívea nasceu em 1980 no município de Nova Lima, uma cidade encravada entre morros a pouco mais de 20 quilômetros de Belo Horizonte. Conta que descobriu a  literatura quando começou a ler as letras de música nos vinis que os pais tinham em casa: “Era uma galera que cantava a realidade brasileira. Chico Buarque, Gonzaguinha, Cartola”, lembra.  Foi também por influência dos pais que se interessou por política. Ativista de esquerda, o pai de Nívea foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) na cidade. “Cresci acompanhando as reuniões do partido e lendo as atas de assembleia das associações de bairro”.  Em Interiorana, reflexões sobre política dividem espaço com a elaboração poética da vida no interior. No livro, há todo um capítulo dedicado à Nova Lima. A cidade, onde Nívea vive ainda hoje, é retratada como um lugar que desperta reações ambíguas: “Nova Lima é uma cidade do interior como tantas outras, em que todo mundo se conhece e onde há certo conservadorismo de valores”, explica.  Estão lá o pipoqueiro que trabalha aos domingos na praça em frente a igreja; o coreto no centro da cidade; e as montanhas que contornam o município, como que o isolando do mundo externo: “Acho que quem nasce no interior tem uma forma diferente de vivenciar o tempo” diz Nívea. A poeta conversou com a Brasil de Direitos no começo de janeiro, por telefone, enquanto espiava pela janela de casa: “Agora mesmo, enquanto eu falo com você, eu vejo as montanhas”.  “Eis a Nova Lima De pé no progresso Nascidos e criados emigram Para vez ou outra vir nos visitar” Trecho de "Nova Lima Nova"   Mas estão lá, também, críticas a uma cidade que não foi capaz de garantir qualidade de vida a toda a população. Nova Lima foi fundada em meados do século XVIII, e cresceu em torno da atividade mineradora, dominada por companhia inglesas.  O trabalho nas minas deixou marcas no imaginário e no físico da população: “É comum que os homens mais velhos morram de asbestose”, conta Nívea. A doença, que prejudica o funcionamento dos pulmões, é provocada pela inalação de poeira de amianto. “A gente fala que toda pessoa nascida em Nova Lima é dona de uma herança que nunca vai receber. A herança do ouro que foi explorado e levado daqui”.  Interiorana termina ainda com um conto — uma conversa imaginada entre a poeta e uma idosa faladeira que, sem aviso, decide lhe contar detalhes da própria vida. O texto celebra, em prosa, aquilo que Nívea tenta fazer com versos: aproximar as pessoas para conversar. “Através da poesia, é possível dialogar, sensibilizar o outro para questões que importam”, afirma. “Porque a arte nos mostra o poder da transformação. O poder de imaginar outros mundos possíveis”.  Foto de abertura: (Júlio César Almeida/ Fundo Brasil)  

Mobilização e articulação

O autocuidado tem função política, defende ativista

Por Rafael Ciscati  Em outubro de 2000, quando o líder sérvio Slobodan Milosevic perdeu as eleições para a presidência do país, Jelena Dordevic saiu gritando em êxtase pelas ruas da capital, Belgrado: “Ele caiu, ele caiu!”, comemorou, cercada pelas amigas. Ao longo de toda a década anterior, Milosevic fora  apontado como um dos principais responsáveis por colocar em curso uma política de extermínio étnico que matou centenas de milhares de pessoas, entre sérvios-muçulmanos, bósnios e croatas. Na época, a Sérvia, onde Jelena nasceu, fazia parte da Iugoslávia — um país que se dissolveu em meio a uma sangrenta guerra civil. Por isso, a deposição de Milosevic, naquele começo de década, vinha acompanhada pela expectativa de que, enfim, as coisas melhorariam.  >>Por que a sigla LGBTI+ mudou ao longo dos anos Jelena tinha pouco mais de 20 anos. Nascida em uma família de artistas e militantes de esquerda, tomou fôlego para se envolver no combate ao tráfico de mulheres e meninas. O trabalho era árduo e, com alguma frequência, as manifestações que ela e suas colegas organizavam eram violentamente reprimidas pela polícia. Logo, a esperança deu lugar à exaustão: “Nós tínhamos tirado a cabeça que comandava aquele estado violento, mas o aparato continuava todo lá”, conta ela.  “Eu via minhas companheiras caírem doentes, uma a uma. E eu mesma adoeci”. Quase duas décadas depois, Jelena diz que guarda desse episódio ao menos duas importantes lições. A primeira diz respeito a certa maturidade política: “Entendi, com o tempo, que não basta tirar uma pessoa do poder para mudar todo sistema”.  A segunda lição foi aquela que selou seu destino como militante a partir dali: a de que, para garantir a continuidade do trabalho, os defensores de direitos humanos precisam atentar para o próprio bem estar e segurança. “O autocuidado tem importância política”, afirma.  >>Nada substitu o trabalho de base, diz Opal Tometti Desde 2004, Jelena se encarrega de pesquisar e documentar estratégias de autocuidado empregadas por grupos de defesa de direitos ao redor do mundo: "Essa busca pela segurança e pelo bem estar vem de longe, faz parte da resistência. E foi essencial para que esse grupos sobrevivessem”, afirma. O trabalho já a levou a lugares tão variados quanto o Oriente Médio, a Chechênia e o Brasil, onde mora há oito anos: “ Vim ao Brasil buscar novos caminhos para a luta e para a minha vida, e para me afastar da guerra”, diz ela. “Qual não foi minha surpresa quando cheguei ao Rio de Janeiro e deparei com a guerra aqui, na forma dos caveirões que sobem para as favelas”. >>Guia traz dicas para falar sobre direitos humanos A pesquisa também resultou na publicação de um livro em 2007  - “Que sentido tem a revolução se não podemos dançar”, escrito à quatro mãos com a americana Jane Barry. Na obra, as duas autoras examinam a vida de mulheres militantes para tratar daquilo que Jelena chama de as “três dimensões do autocuidado”: a individual (que envolve conhecer melhor sua história e necessidades individuais); a das relações entre militantes dentro de um grupo; e a dimensão social. “Essa última se refere aos cuidados na sociedade em geral”, explica ela. “ As pessoas precisam de um sistema de saúde que funcione, precisam de aposentadorias, precisam ter o que comer e um teto para onde voltar. Se não, de nada adianta ter espaços para cuidados imediatos”. As discussões sobre autocuidado ganharam popularidade nos últimos anos conforme cresceram as preocupações relacionadas à saúde mental, e a males cada vez mais prevalentes, como depressão, ansiedade e burnout - a exaustão provocada pelo excesso de trabalho.  >>Angela Davis e as faíscas que acenderão a revolução Entre defensores de direitos humanos, no entanto, o assunto é ainda um tópico delicado: “O ativista, muitas vezes, se faz de durão. É uma técnica de defesa”, diz Jelena. “Por que é muito difícil você se permitir sentir no meio da guerra”. A tática não é suficiente para protegê-los. O excesso de trabalho e o contato constante com situações de violência ou de grande tensão deixam marcas psicológicas e físicas. Em 2015, uma equipe da escola de medicina da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, avaliou a saúde psicológica de 346 pessoas envolvidas em organizações ativistas ou que faziam algum tipo de trabalho humanitário. Cerca de 20%  apresentavam sintomas típicos de burnout. Uma parcela semelhante apresentava sintomas graves de estresse pós-traumático — para comparação, nos Estados Unidos, a prevalência desse transtorno gira em torno de 7% da população. Atividade de autocuidado com a Comissão Pastoral da Terra em 2019. Durante as entrevistas para o livro, as ativistas evitavam falar de si: "Os defensores, muitas vezes, se fazem de durões" (Foto: Arquivo Pessoal) Amenizar esse quadro  exige desafiar algumas verdades pré- estabelecidas entre defensores, dizem as autoras. A de que o excesso de trabalho é uma realidade dada e incontornável, por exemplo. Ou a de que " verdadeiros ativistas morrem pela causa " e não podem se permitir certos confortos.  Num dos trechos do texto, Jelena e Jane contam a história de uma brasileira que, depois de anos dedicados ao trabalho humanitário ( e a cuidar da própria família, numa dupla jornada extenuante), se permitiu passar por uma loja e comprar o par de sapatos que desejava há tempos. Ela se sentia fútil — e as próprias autoras, elas admitem, acharam a atitude um pouco frívola quando ouviram o caso: “A verdade é que nós julgamos demais. Julgamos demais uns ao outros e a nós mesmos”, escrevem Jelena e Jane.  A solução também passa por cobrar mudanças nas maneiras como o trabalho humanitário é financiado.  Com alguma frequência, financiadores — públicos ou privados — cobram que as organizações apoiadas deem provas objetivas da efetividade de suas ações, algo nem sempre possível. Ou que preencham um sem número de relatórios como condição para manter o financiamento. Com certa frequência, também, os grupos de ativistas não consideram, nos custos de seus projetos, itens importantes: como a necessidade de pagar salários adequados pelo próprio trabalho.  De acordo com as autoras, essa interação entre grupos apoiados e financiadores precisa melhorar.  Um dos pontos mais complexos, no entanto,  talvez seja convencer defensores de direitos humanos a falar sobre si mesmos. Essa recusa complicou a elaboração do livro de Jelena e Jane: durante as entrevistas, as ativistas tentavam desviar o rumo da conversa, de questões individuais para aquelas relacionadas aos retrocessos que elas combatiam.  Nas atividades em grupo que conduz, Jelena tenta driblar essa resistência lançando mão de uma série de exercícios corporais que, segundo ela, ajudam a relaxar e aliviar o estresse. É uma forma de vencer barreiras: e convencer os presentes de que se encontram em um lugar seguro, onde podem falar sobre problemas pessoais sem temer julgamentos. “Nessas ocasiões, eu sempre ouço coisas como ‘poxa, te conheço há 20 anos e não sabia que você passava por isso, que você pensava assim’”, conta Jelena. “E é isso a luta. Por trás das nossas ideias, das injustiças que a gente combate, há pessoas. Que precisam comer, dormir e sonhar. E isso precisa ser preservado”.  Foto: A ativista Jelena Dordevic durante atividade promovida pelo Fundo Brasil em 2019 ( Fundo Brasil/ Selmy Yassuda)  

Povos indígenas

O dia em que todo mundo virou Guarani-Kaiowá

por Spensy Pimentel* Quem já tinha ouvido falar da tragédia vivida pelos Guarani-Kaiowa de Mato Grosso do Sul antes de 2012? Dentre os que acompanham o noticiário sobre as lutas sociais com mais atenção, talvez alguns se lembrassem das notícias fartamente veiculadas na imprensa nos anos 90 a respeito da epidemia de suicídios que esse povo indígena vive há mais de três décadas.   Mas, certamente, uma parcela muito menor da população podia perceber que esse povo – o segundo mais numeroso do país, com 46,2 mil pessoas, segundo dados de 2013 – não só era vítima de uma grande tragédia, mas também protagonista orgulhoso de uma luta ferrenha, travada de diferentes formas nos últimos 500 anos. Na expressão mais recente dessa verdadeira guerra, os Guarani-Kaiowa organizam, desde o final dos anos 70, um movimento construído em torno das chamadas Aty Guasu (grandes assembleias), a fim de articular apoio mútuo a ações de resistência contra despejos e de recuperação de territórios dos quais dezenas de comunidades foram expulsas ao longo do século XX – muitas vezes, por iniciativa ou com apoio dos próprios órgãos oficiais de “proteção” aos indígenas.   Não foi à toa que a difusão de informações sobre as tragédias era muito mais ampla do que a percepção de que os Guarani-Kaiowa reagiam à opressão. O movimento Aty Guasu permaneceu praticamente clandestino até meados dos anos 90. Não é força de expressão: até o início dos anos 80, a Fundação Nacional do Índio (Funai) era diretamente controlada pelos militares, em função do potencial de geração de escândalo internacional que as opressões vividas pelos indígenas brasileiros haviam demonstrado no final dos anos 60, logo no início da ditadura militar. Por isso, mesmo após a redemocratização do país, o acesso de antropólogos e outros indigenistas às aldeias ainda era vigiado e, por vezes vetado, ao mesmo tempo em que as viagens de lideranças eram controladas, e muitas assembleias indígenas tinham que ocorrer de forma oculta. Entidades como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) já eram especialmente perseguidas. >>Novas demarcações serão principal desafio dos povos indígenas   A rápida expansão das redes sociais nos últimos anos, e particularmente do Facebook no Brasil, sobretudo a partir de 2011, abriu novas oportunidades de comunicação livre. Antropólogos e o Cimi já colaboravam com a difusão de informações sobre os Guarani-Kaiowa desde a criação do movimento Aty Guasu, mas foram as possibilidades abertas pela nova era digital, nos últimos anos, que verdadeiramente projetaram esses indígenas à visibilidade que eles hoje ocupam.   Em outubro de 2012, a difusão de uma carta pública da comunidade guarani-kaiowa de Pyelito Kue, em Iguatemi (MS), foi o disparador para uma ampla onda de solidariedade a esse povo. Um fenômeno impressionante: em mais de 50 cidades do país e do exterior, grupos de apoiadores saíram às ruas expressando seu apoio aos Guarani-Kaiowa e pedindo que o governo brasileiro não permitisse o despejo dos indígenas do Pyelito Kue. Em paralelo, circularam diversos abaixo-assinados e até mesmo uma campanha virtual para que as pessoas mudassem seu sobrenome no facebook, passando a assinar elas mesmas como “Guarani-Kaiowa”. Em universidades e outros espaços, debates, aulas públicas e outros eventos de solidariedade aconteceram por todo o país. >>"Mulheres indígenas também lutam por igualdade de gênero", diz Sônia Guajajara   Claro que, para que se chegasse a esse ponto, muitas pessoas já trabalhavam desde os anos 70, fossem as centenas de lideranças indígenas que participam do movimento Aty Guasu, ou os muitos indigenistas, antropólogos, artistas, jornalistas e outros profissionais que deram apoio ao grupo ao longo dessas últimas décadas, coletando e divulgando informações sobre sua tragédia e sua luta, em reportagens, documentários, artigos, fotografias...   Mas, em meio a tudo isso, uma história muito especial e talvez pouco conhecida seja a do antropólogo kaiowa e ativista do movimento Aty Guasu Tonico Benites. Desde criança, Tonico cresceu em meio ao movimento de luta pela terra. Sua comunidade de origem, o Jaguapiré, em Tacuru (MS), foi uma das primeiras a serem recuperadas pelos Guarani-Kaiowa, tendo sido homologada em 1992. Ele acompanhou de perto todo esse processo, recentemente retratado no documentário “Martírio”, de Vincent Carelli. No filme, é possível conhecer, por exemplo, episódio de 1985, em que policiais militares, a mando de um político local, invadiram a comunidade, destruindo casas e espancando pessoas – muitas delas parentes de Tonico. >>Por que a sigla LGBTI+ mudou ao longo dos anos   Mais tarde, Tonico passou a lecionar na escola da comunidade e foi um dos pioneiros do movimento   de professores guarani-kaiowa – importante força na demanda por políticas públicas voltadas a esses indígenas nos últimos anos. Ele cursou Pedagogia na então recém-criada Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), em Dourados. Foi nesse período, em 2003, que nos conhecemos – eu finalizava a pesquisa de mestrado sobre os suicídios entre os Guarani-Kaiowa, e as conversas que tivemos então foram cruciais para refinar minha compreensão sobre os sentimentos e atitudes dos jovens indígenas que terminam por cometer esse ato tão radical – mais de 1.100 dessas mortes já foram registradas entre os Guarani-Kaiowa desde o início dos anos 80, sendo grande parte das vítimas jovens.   Antropólogos que haviam atuado junto aos Guarani-Kaiowa desde os anos 70 e já conheciam Tonico desde que ele era só um menino foram importantes para perceber sua vocação e dar-lhe apoio em sua próxima transição: no Rio de Janeiro, ele cursou mestrado e doutorado em Antropologia, tornando-se o primeiro kaiowa com título de doutorado no país.   Depois de deixar meu trabalho em Brasília como jornalista, em 2008, para voltar a dedicar-me aos estudos em São Paulo, tive a grata surpresa de reencontrar Tonico em 2011. Agora, ambos fazíamos nossos trabalhos de campo para o doutorado em Antropologia em Mato Grosso do Sul.   Em 2012, uma grande mobilização - alimentada pelas redes sociais - levou pessoas às ruas, em apoio aos Guarani-Kaiowá (Foto: Agência Brasil) Foi nesse período que Tonico e eu enfrentamos, em nossos trabalhos de campo, a necessidade não somente de buscar informação nas comunidades, mas também de denunciar o que víamos e o que nos contavam sobre o que se passava. Era um momento em que os ataques paramilitares contra os acampamentos guarani-kaiowa recrudesciam. Comunidades como as de Pyelito Kue, Ypo'i, Arroio Korá, Kurusu Amba, Apyka'i e tantas outras eram constantemente alvo de ameaças e de agressões que se tornavam parte inescapável de nossas pesquisas.   Recebendo apelos das lideranças indígenas para que levasse até o Ministério Público, a Funai e qualquer outra autoridade que pudesse lhes socorrer, Tonico frequentemente escrevia e-mails em que transcrevia as histórias que lhes relatavam, sobre ameaças e ataques às comunidades. Nessa atividade, seu talento de tradutor e intérprete de seu povo se destacava.   Foi a partir daí que surgiu o projeto apresentado ao Fundo Brasil de Direitos Humanos, elaborado com apoio do Cimi, entidade que, desde os anos 70, busca apoiar a divulgação de informações sobre as violações sofridas pelos Guarani-Kaiowa. A ação de Tonico, porém, tornou-se emblema de uma nova era, em que os próprios indígenas, munidos de celulares com câmeras e perfis em redes sociais, podem divulgar, eles mesmos, com suas próprias palavras, qualquer ameaça ou ataque que recebam, muitas vezes em tempo real. Utilizando os recursos do Fundo Brasil, ele visitava os acampamentos guarani-kaiowa, publicando na internet as fotos, relatos e pequenos vídeos para denunciar as mazelas que atingiam os indígenas.   E foi assim que Tonico, com apoio do Fundo Brasil, ajudou os Guarani-Kaiowa a fazerem história, tornando-se ícones da nova era da internet no Brasil. Porque foi no perfil do Facebook do movimento Aty Guasu, do qual ele era um dos principais administradores, que se publicou originalmente a carta do Pyelito, no início de outubro de 2012:   “Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Assim, é para decretar a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e para enterrar-nos todos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem morto e sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo de modo acelerado. (...) Como um povo nativo/indígena histórico, decidimos meramente em ser mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime” Naquela ocasião, a jornalista Eliane Brum comparou a carta do Pyelito à famosa carta fundadora do escrivão português em 1500: “Se a carta de Pero Vaz de Caminha marca o nascimento do Brasil pela palavra escrita, é interessante pensar o que marca a carta dos Guaranis Caiovás mais de 500 anos depois. Na carta-fundadora, é o invasor/colonizador/conquistador/estrangeiro quem estranha e olha para os índios, para sua cultura e para sua terra. Na dos Guaranis Caiovás, são os índios que olham para nós”. Com o apoio do Fundo, Tonico conseguiu levar um pouco do olhar indígena sobre essa tragédia que já dura décadas. Com muito pouco, foi possível operar uma pequena revolução na percepção brasileira sobre o que acontece ali. Os problemas dos Guarani-Kaiowa seguem sem solução – mas já é um grande passo que não se possa mais atacar ou ameaçar um acampamento indígena sem causar um grande barulho na sociedade civil brasileira e internacional. Seja no front de MS ou na internet, onde milhares de pessoas hoje atuam para difundir informações e pressionar as autoridades, a luta continua. *Texto originalmente publicado na revista em comemoração aos 10 anos do Fundo Brasil Foto de abertura: Lideranças indígenas protocolam, no STF, memorial sobre a situação de vulnerabilidade dos Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul (Mídia Ninja)  

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