Opinião

Enfrentamento ao racismo | 28 Out 2021

O filme Marighella e a licença poética

Na biografia do guerrilheiro que lutou contra a ditadura, Seu Jorge encanta ao encarnar um Marighella retinto. Com isso, o filme escolhe seu lado na história
“É melhor morrer por uma ideia que vai sobreviver do que viver por uma ideia que morrerá” – Steve Biko


Essa frase povoava o meu pensamento quando saí do Teatro Castro Alves, impactado pela pré-estreia do filme Marighella, de Wagner Moura e estrelado por Seu Jorge.  A noite da última segunda-feira (25) trouxe algumas surpresa e inquietações às quais dedico algum tempo e as próximas linhas deste texto. Não espere comentários de crítico de cinema, pois encontrará as impressões de um homem negro, neto de um anarquista perseguido e torturado pela ditadura. Como conexão entre passado e futuro, trago algumas frases de Marighella ao longo do texto. A primeira delas afirma: “as pessoas precisam saber que no Brasil tem gente resistindo e essa luta é justa!”

Antes do início da exibição do filme, a fala precisa e emocionante de Wagner Moura foi denegrida* pela presença de lideranças do movimento negro que subiram ao palco por fazerem parte da Coalizão Negra por Direitos. Tornamos mais negro aquele palco composto pela equipe e pelo elenco do filme. O grupo de ativistas fez música aos nossos ouvidos num grito de ordem que ecoou por todo o teatro: “Povo negro unido. Povo negro forte. Que não teme a luta, que não teme a morte.”

O filme, que dura cerca de duas horas e meia, conta a história do político baiano — nascido em Salvador — que se tornaria um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Durante certo tempo, Marighella chegou a ser alcunhado “inimigo número um” do regime de exceção então vigente no país. A película acompanha os últimos cinco anos de vida do guerrilheiro. Vemos, em carne, osso e muita luta, as estratégias das pessoas que, naqueles tempos, lutaram para que hoje eu pudesse estar aqui expondo as minhas opiniões.

O filme retrata Marighella como um homem amoroso com o seu país, honesto com suas convicções e leal aos seus desejos e sonhos patrióticos. É a história de um homem negro que “amava o Brasil”, que passou a ser uma referência negra na luta antirracista e antifascista, por sua potência transgressora, característica daqueles tipos de gente que é inatingível devido à sua grandiosidade. Como ele mesmo diz: “Se o conformismo é comum, a revolução é necessária.”

A produção do filme e o próprio Marighella são vítimas de um golpe traduzido numa ditadura militar que durou 21 anos no Brasil. Ambos se rebelaram em suas épocas. Marighella foi assassinado por defender uma causa.  O filme de Moura, baseado na biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães, nasceu para denunciar e evitar tantas outras mortes, sejam elas físicas ou simbólicas. Estreou no Brasil com atraso, mais de dois anos depois do que foi originalmente planejado. Em mais de uma entrevista, Moura afirmou que as dificuldades enfrentadas para lançar o filme no país representaram uma forma de censura.

A obra mostra que toda luta é uma continuidade. Cada um em sua época, junto a sua respectiva geração, Marighella e o filme que conta sua história cumpriram o exitoso papel de escolher um lado. Rebeleram-se contra o que estava posto, o que lhes fora imposto. Como um grande legado, deixam-nos o recado: “É importante eles saberem que a gente não vai parar.”

Sei que vão dizer que Marighella não era “tão negro assim” e esquecerão que esse filme também é sobre a licença poética de ter o ator, cantor e compositor Seu Jorge  estrelando e encantando no papel deste protagonista. Essa permissão traz musicalidade, corporeidade, ancestralidade e tantos outros valores característicos do povo negro brasileiro, ao assumir um lado da história: lutou com todas as suas armas para que hoje possamos encher o peito de orgulho e gritar: “paz no futuro e glória no passado.”

Marighella é poesia pura. É circularidade e fluxo contínuo em busca de liberdade. Assistir ao filme deve ser encarado como uma experiência única que chegará de forma bastante personalizada à cada olhar que dedicar-lhe atenção. É tanta coisa a dizer sobre o filme, mas há também tanta coisa ainda repercutindo em meu silêncio-reflexivo, que é fruto desta e de tantas outras experiências. Mais do que um personagem histórico, Marighella representa cada pessoa que fez e faz uma luta justa contra as diversas formas de opressão enraizadas em terras brasileiras, terreno de tanta desigualdade. O filme é um convite para sair de cima do muro, da inércia e da imparcialidade. É um alerta de que o que fazemos hoje é fruto de uma luta histórica e revela-nos que: “A única luta que se perde é aquela que se abandona.”

Esse filme já se faz importante somente pelo fato de re (existir). A mensagem que transmite e a frase de Steve Biko, que abre esse texto, continuarão ecoando em minha mente por muito tempo.
 
George Oliveira é ativista do movimento negro; escritor e autor do livro – Denegrir: Educação e Relações Raciais; doutorando em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

*No texto, o termo denegrir é ressignificado pelo autor. Nessa acepção, significa tornar negro, descobrir sua negritude — e valorizá-la.

Foto de topo: Divulgação/Paris Filmes
 

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